Capitães da Areia (2011)
Por algum motivo há, enraizado na cultura do povo brasileiro, o conceito de que tudo o que é produzido aqui é inferior ao que é produzido no exterior (e por exterior entende-se basicamente Europa e Estados Unidos) e a literatura muitas vezes cai nesse mesmo triste engano. A verdade, porém, é que a literatura brasileira – e pessoalmente destaco a fase que ocorre a partir do realismo de Machado de Assis – é extremamente rica, tendo produzido obras que podem ser consideradas, sem sombra de dúvidas, patrimônio cultural da humanidade. Um escritor baiano ganhou grande sucesso no século XX e seu nome é Jorge Amado. Algo como um Ítalo Calvino brasileiro (ou Ítalo Calvino, um escritor de uma geração mais jovem, deveria ser chamado de Jorge Amado italiano?), Jorge Amado foi traduzido para mais de quarenta idiomas, ganhou o Prêmio Camões (o Nobel da língua portuguesa), foi nomeado para a Academia Brasileira de Letras em uma época onde não havia Paulos Coelhos ou Josés Sarneys manchando a reputação da casa e teve várias de suas obras adaptadas para a televisão, cinema e teatro. “Capitães da Areia”, uma de suas obras mais célebres ganhou recentemente uma versão para o cinema dirigida por sua própria neta, Cecília Amado.
Ambientado em algum espaço de tempo entre os anos 30 e 50, o filme (e o livro, claro) conta a história de uma turma de meninos de rua que são conhecidos pela alcunha de “Capitães da Areia”. Os meninos são peritos na arte de furtar, aplicando diversos golpes na região histórica de Salvador, onde vivem. Em primeiro lugar o filme não é um gigolô da miséria, ela não é explorada de forma melodramática para nos sentirmos tocados com a pobreza e as diferenças sociais, isso acontece naturalmente. A vida dos meninos é mostrada de forma bastante cínica, quase fugaz, o que acaba por resultar em um filme surpreendentemente leve.
Mas nem tudo são flores: o filme exala falta de experiência da diretora, que até então havia trabalhado geralmente como assistente de direção. Se há momentos inspirados, como a sequência da briga nos trilhos do trem, há momentos em que a diretora parece meter os pés pelas mãos, misturando uma linguagem sóbria com variações de velocidade à la Guy Ritchie que simplesmente não funcionam para o longa. O filme peca ainda pelo uso de certas câmeras lentas quebradas e totalmente fora de contexto, além de um uso exagerado de planos fechados. A direção de fotografia, elemento que vem crescendo muito no cinema nacional, também não faz um papel excepcional. Há, claro, sequências belas, mas há momentos também em que nem mesmo o foco é mantido no rosto dos atores.
O elemento mais problemático no filme, porém, é o roteiro. Não é fácil adaptar a obra de um grande escritor, sobretudo se o escritor em questão é seu avô. Imagino o peso sobre os ombros de Cecília Amado ao desempenhar (juntamente com Hilton Lacerda) essa função. Percebe-se, contudo, que tamanha responsabilidade converteu-se num texto ruim, onde é muito forte a presença do medo em alterar qualquer vírgula do romance de Jorge Amado. Isso resultou em diálogos excessivamente literários que ganham pontos com as gírias comumente faladas, mas perdem outros mais por usar de um português muito correto para personagens que seriam mais críveis se usassem um vocabulário mais simples. O que se tem, finalmente, é uma aberração linguística onde em uma mesma frase um menino de rua usa gírias locais e um português parnasiano. Isso põe o filme um pouco mais distante do palpável do que ele gostaria. O conteúdo do texto, porém, é de uma excelência tão exuberante que eclipsa tais falhas e logo nos faz embarcar junto aos personagens. Conteúdo ótimo com diálogos fracos, este filme é mesmo uma obra de paradoxos. Embarcando em uma onda de tendência quase neorrealista, os atores que fazem os tais “Capitães da Areia” tem uma caracterização exemplar, porém a falta de experiência de todos (ao que consta, são todos amadores) fica visível e acaba de comprometer as linhas de diálogo já deficientes.
Em todo caso, “Capitães de Areia” é um bom filme, não é o melhor filme já feito no Brasil, mas é honesto e vale o ingresso, seja ele o valor que for. Como disse anteriormente, apesar de suas várias deficiências, o universo criado por Jorge Amado nos leva em completa estesia, fazendo-nos torcer pelos personagens à beira da tragédia e nos compadecendo com dramas que, apesar de não serem totalmente explorados, dão suficientemente a idéia para que possamos levá-la conosco: é assim a relação do personagem Sem Pernas com a chance de ter uma família que o amasse ou a do Professor frente ao amor não-correspondido por Dora. Mas o grande discurso do filme fica mesmo para o final, quando nós somos apresentados, através de uma ótica infantil e inocente, aos futuros dos meninos, afinal – ao contrário do que a sociedade imagina – eles não nasceram para roubar ou com a pré-disposição para serem pessoas ruins, eles são, no final das contas, prisioneiros da mediocridade ansiando pela liberdade. E afinal, não somos todos?
Capitães da Areia. Dir.: Cecília Amado, com Jean Luis Amorim, Ana Graciela, Robério Lima, Israel Gouvêa e Paulo Abade
Estreou 07/10












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