Melancolia (2011)
Há quem não goste do cinema do dinamarquês Lars von Trier, há quem não goste do cineasta como pessoa, mas ninguém pode contestar o caráter autoral de sua obra. Muitos de seus filmes são difíceis de se assistir, no sentido em que alguns deles exigem um certo tipo de “preparação espiritual” (vide Dancer in the Dark, provavelmente o filme mais triste já feito); Melancolia, como não poderia deixar de ser, é mais um desses filmes, embora não seja o mais pesado da filmografia de Von Trier. A história gira em torno de duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg); dividido em dois atos, cada um dedicado a uma irmã, o filme tem como pano de fundo uma iminente catástrofe representada pela colisão do planeta Melancholia com a Terra que exterminará toda a vida. Em primeiro lugar, os dois capítulos de Melancolia são praticamente dois filmes diferentes: no primeiro Justine está em sua festa de casamento tentando agradar a todos e fazendo um grande esforço para ser feliz; no segundo, tempos depois, Justine está em depressão profunda, sob os cuidados de Claire que teme o apocalípse que se encaminha.
Na primeira parte somos introduzidos aos personagens, conhecemos Justine como uma mulher jovial e impulsiva em contraste à sua irmã que sempre parece buscar estabilidade e racionalidade. A pomposa festa de casamento de Justine e Michael (Alexander Skarsgård) é na verdade paga por John (Kiefer Sutherland) o marido milionário e sovina de Claire. Todos os acontecimentos giram em torno da perspectiva de como Justine vê a vida, todos os procedimentos e tradições de casamentos assumem um tom frívolo já que ela não consegue, apesar de tentar verdadeiramente, sentir-se feliz com tudo aquilo. Tudo que a irmã e principalmente o cunhado acreditam ser necessário – a presença amável diante de convidados enfadonhos, os sorrisos frente à todos, o comportamento programado – é sutilmente repudiado por ela, não de forma racional, mas de forma natural: por mais que ela tente ela não pertence àquele lugar.
Ainda no começo do filme, em um dos brindes (mais uma tradição enfadonha que acaba nos lembrando de Festa de Família, o filme de Thomas Vinterberg que estreou a corrente do Dogma 95) somos apresentados a dois personagens interessantes: os pais divorciados de Justine e Claire, Gaby (Charlotte Rampling) e Dexter (John Hurt) que acabam fazendo uma cena constrangedora à frente dos convidados. Gaby é extremamente ranzinza, espezinha o casamento e trás Justine à realidade com declarações ácidas como “Eu não acredito em casamentos” e “aproveite enquanto durar”, enquanto Dexter é um mulherengo piadista e irresponsável fugindo da própria filha que praticamente suplica por uma conversa de pai para filha. Tanto pai quanto mãe parecem representar dois lados de uma mesma moeda, a personalidade irreverente e a personalidade pragmática e séria, aliás dualidade é a palavra chave de Melancolia.
No segundo capítulo, Justine – em meio a uma grave crise de depressão – vai morar por uns tempos no palacete de Claire e John. Claire a cada dia que passa fica mais temerosa pelos relatos que lê na internet sobre o choque com o planeta azul Melancolia, mas John – um pedante entusiasta de astronomia – mente para acalmá-la dizendo que tudo vai ficar bem. Assim como Gaby e Dexter, percebemos que Claire e Justine também são representações de dois lados distintos: Claire procura racionalizar tudo e, pior que isso, não consegue deixar de agir fora das convenções sociais sem qualquer senso crítico sobre as mesmas; já Justine é, como bem sabemos no primeiro capítulo, impulsiva, sente antes de pensar e, numa idealização até certo ponto radical de Von Trier, chega ao ponto em que sua não-racionalização leva a uma consciência superior à de Claire, como ela mesmo chega a dizer em certo ponto do filme “eu sei das coisas”. Automaticamente fazemos a ligação de que quanto mais conhecemos do mundo, quanto mais sábios ficamos, mais propensos à depressão estamos, pois sabemos como as coisas deveriam ser e como elas realmente são, no caso de Justine, o quão imbecilizante podem ser as convenções sociais tão caras à Claire e à John. É interessante notarmos ainda que o único personagem que Justine se dá bem durante todo o filme é o seu sobrinho pequeno Leo (Cameron Spurr), já que como criança ele parece se importar com coisas mais palpáveis que carros ou a maneira de se comportar à mesa. Essa relação dual das irmãs é ressaltada no fim, quando todas as esperanças estão perdidas e só resta escolher a forma como irão morrer. No final das contas, o filme parece ser uma ode ao “espírito simples”, àquele nosso lado que não vê valor na frivolidade da sociedade e que por meio da reflexão procura “apenas” ser feliz.
Ouvi falar muito da fotografia deste filme, mas a verdade é que fora o clímax e algumas cenas que lembram as pinturas metafísicas de De Chirico, não há nada de excepcional, o destaque vai mesmo para as atuações dos atores (como Von Trier, notório carrasco de atores, parece conseguir extrair o melhor deles!), a trilha-sonora que opta por belos trechos de Tristão e Isolda de Richard Wagner (quem sabe fazendo uma ponte entre a tragédia da estória e o fictício choque com o planeta) e os diversos elementos que enriquecem a obra, a começar pela cor de Melancolia: azul, um referência clara à blue, palavra que em inglês significa azul e que também tem a conotação de “tristeza” (daí o nome “blues”, originário das canções tristes de escravos que trabalhavam às margens do Mississipi). Outro elemento a ser observado é o campo de golfe. Em torno da propriedade há um campo de golfe que, como John deixa claro em certa altura, tem 18 buracos, porém já nas sequências finais, Claire carrega Leo desesperada pelo campo sob uma chuva de granizo e podemos ver uma bandeira ao fundo marcando o 19º buraco. Além disso há a ponte que não só o cavalo de Justine não ousa cruzar como até mesmo o carrinho de golfe para de funcionar.
Por mais que estes elementos não nos assegurem uma leitura precisa da obra (eu mesmo ainda não cheguei a uma conclusão muito sólida sobre esses dois últimos elementos), eles permitem que possamos construir nossas teorias pessoais (seria o planeta Melancolia, por exemplo, uma referência à obra de Albrecht Dürer, cuja famosa gravura, Melancolia I, da inclusiva a idéia de depressão em contra-partida ao conhecimento?), fazem com que continuemos a pensar sobre aquilo, tira o caráter descartável do cinema comercial. É isso que diferencia um filme que se propõe a ser uma peça de “arte” de uma filme que se propõe a ser “entretenimento”. Não é possível ao espectador sair do cinema sem parar para pensar por um instante, por menor que seja, no que acabou de ver. Senhoras e senhores, pode-se não gostar do cinema de Von Trier, mas não pode-se negar que Melancolia é cinema com “H” maiúsculo.
Melancolia (Melancholia) – Dir.: Lars von Trier, com: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland e Cameron Spurr












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