E esse novo Thundercats?

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Posted 01 September 2011   Cultura, Desenhos, Televisão

 

Em 2007, a Warner Bros chegou a anunciar o início da produção de um filme em CGI dos Thundercats (um teste de animação vazou no início do ano), que contaria a origem dos personagens e o crescimento do príncipe Lion (Lion-O no original).  Artes conceituais vazaram na internet pelos idos de 2009 ao mesmo tempo em que a mesma Warner anunciou o engavetamento do projeto. A justificativa era a de que a produtora relançaria os personagens primeiramente na TV, buscando angariar um novo público e tornar o projeto de um vindouro filme menos arriscado.

Dito e feito, alguns meses depois, foi anunciada a nova animação dos “Gatos Trovão”.

Passados alguns episódios desde sua estreia, é possível dizer – com o alívio de um fã saudosista – que Thundercats (2011) não só faz jus à mitologia, como, em alguns casos, supera o material original.

O desenho animado produzido para o Cartoon Netwoork, por Sam Register (Ben 10 e Transformers: Animated), aproveita-se da aura nostálgica da geração passada, mas é rigorosamente um desenho animado feito para a garotada de hoje, abarrotada pela influência animê.

Não que os traços orientais sejam um fator negativo à produção – eu, pessoalmente, não vejo problemas quanto a isso, principalmente se há um respeito ao material original -, aos fãs, o que importa é que o visual dos personagens é mantido em sua essência, apesar de rejuvenescidos (como reza a cartilha das animações a partir do ano 2000). As alterações de vestimentas são orgânicas e condizem com o ambiente e o contexto de toda a história, que tende muito mais para uma saga de contornos épicos do que para uma aventura de super-heróis (que, devemos admitir, era o tom do desenho dos anos 80).

A influência animê também é sentida na continuidade da linha narrativa principal, que se estende através dos episódios, bem como no ritmo ágil das estórias (esqueça daquela pegada bucólica dos passeios de Snarf pela floresta ou da levada zen quase psicodélica dos episódios que tinham Tygra como personagem central).

Na mitologia criada em 2011, Thundera deixa de ser um planeta e passa a Reino dos felinos no chamado Terceiro Mundo. Governada por Claudius, Thundera é uma nação próspera e que sobrepujou os demais reinos animais (em substituição ao conceito original dos Mutantes). Os Lagartos são escravizados e tratados com desprezo e arrogância pelos thunderianos. Lion é o herdeiro do trono, mas também um sonhador que acredita nos mitos da “Tecnologia” e de “Mumm-Rá“, um rival movido pelos “Antigos Espíritos do Mal” e derrotado há muito pelos ancestrais felinos. Tygra é aqui irmão adotivo e mais velho de Lion, o que garante uma ‘rivalidade’ interessante entre os dois nos episódios iniciais da série; pena que seja esquecida logo depois.

As reinterpretações parecem sempre acertadas para a narrativa: Cheetara faz parte de um grupo seleto da guarda de Thundera, os Clérigos de Jaga, e também está lá para ser o par romântico de Lion; Panthro não é mais apenas o mecânico do grupo, mas um ex-general de Claudius, supostamente morto em suas andanças em busca do “Livro dos Presságios”; WillyKitty e WillyCat são ladrõezinhos astutos e cheios de truques nas mangas que querem encontrar a Cidade dos Tesouros “El Darra” e – talvez a melhor de todas as decisões – Snarf é apenas um bichinho de estimação QUE NÃO FALA.

A Toca dos Gatos como o castelo do reino thunderiano, a participação rápida de Lynx (aparentemente ainda não acometido pela cegueira) e a presença, já no primeiro episódio, de Grune – O Destruidor (que teve participação importante no passado de Jaga no desenho anterior) são prova nítida de que os produtores preocuparam-se em olhar para as raízes, sem deixar de ajustar os conceitos à história que pretendem contar.

O fato de Lion ser um jovem movido à impulsividade da idade e não mais uma criança no corpo de um adulto é outro ponto a favor. Venhamos e convenhamos, apesar de o antigo desenho martelar a ideia de que o Rei dos Thundercats era imaturo e tinha muito o que aprender, o que a gente via na esmagadora maioria dos episódios era um guerreiro centrado que sempre resolvia todos os problemas e ainda arrumava tempo pra dar lição de moral nos outros personagens.

Há também maior maturidade na animação atual. Chega da premissa boboca de “vilões-querem-atazanar-nossa-vidinha-pacata-aqui-na-Toca-dos-Gatos“. Mostrar Thundera como um reino magnífico, mas repleto de defeitos cria um universo de possibilidades. O preconceito com as demais raças (em especial, os lagartos) justifica de imediato a tensão entre os Thundercats e seus rivais, além de conferir uma camada mais densa que só fora arranhada na série oitentista, prometendo aqui um arco mais bem elaborado, talvez envolvendo a redenção da postura dos gatos em relação aos seus inimigos – espero sinceramente que os episódios que seguirem continuem trabalhando bem esse tema.

Não vou entrar nos detalhes da trama, mas basta dizer que algo dá errado e o reino de Thundera cai. O arco principal envolve a busca dos Thundercats pelo “Livro dos Presságios”, naquele clima de aventura road movie em que cada episódio insere os personagens em novos cenários e situações, mostrando toda a geografia do Terceiro Mundo (desde o Mar de Areia com peixes-piratas até um reino de plantas fofinhas cantantes inspiradas nos Na’vi de Avatar).

Para o regozijo pessoal de alguns, os primeiros episódios prestam uma homenagem – ainda que implícita – ao clima épico de O Senhor dos Anéis quando a batalha entre os Gatos e os Lagartos é anunciada (sem contar a cena em que Jaga fica pra trás a fim de retardar o inimigo, um eco claro de Gandalf e o Balrog nas Minas de Moria. Só faltou o thunderiano soltar um “You shall not pass!).

E quando o ritmo dessa nova trama já havia me ganhado (no primeiro episódio mesmo), a animação ainda reserva uma surpresa e nos brinda com a icônica sequência em que Lion empunha a Espada Justiceira e convoca todo seu poder, numa emulação perfeita dos movimentos da animação oitentista.

Surpresa e alegria com a nova série de Thundercats

Munida da clara estratégia de honrar o passado, com olhos no presente e mirando no futuro, a animação  vem conseguindo desenvolver toda uma nova mitologia em torno dos Thundercats e, de quebra, alcançar o tão almejado novo público.

Sérios indícios de que, num futuro não tão distante, você poderá se deparar com o Olho de Thundera brilhando na sala escura de um multiplex em sua cidade. É a prova de que a Warner, mesmo sem empunhar a Espada Justiceira, é quem realmente tem a visão além do alcance.

5 Comments

  1. Boa resenha, Max.
    Mas discordo em alguns pontos.
    Pra mim, os desenhos de forma oriental são um ponto negativo forte… Acho que a animação deixar de ser a tradicional ocidental perde não só fidelidade ao antigo… mas também à animação em geral… todos os remakes de animação estão nessa pegada… é dificil reconhecer as manias dos estudios, que era, na minha opinião, o maior ponto positivo da animação de antigamente.

    A rivalidade dos irmãos não é esquecida, e sim deixada de lado devido ao ocorrido nos primeiros episódios.

    Concordo muito com os comentários sobre a história… realmente achei uma evolução em relação ao antigo. Gostei também que usaram planos parecidos com os antigos…e repetições de cenas, como era na época.

    Posted by Trakinos on 01 September 11 at 10:46pm [Reply]
  2. Em questão de preferência pessoal, concordo contigo, Trakinos. Não me apetece o estilão preguiçoso dos traços orientais padrões de hoje.

    Mas acho que o problema é mais profundo do que simplesmente os maneirismos dos estúdios ou a questionável qualidade de animação. A gente sabe, por exemplo, que o estúdio responsável por toda a animação original era também japonês (mais tarde, boa parte dos responsáveis também ajudou a fundar o Studio Ghibli, de Miyasaki) e, a bem da verdade, com exceção do visual tipicamente caricatural dos personagens orientais, Thundercats não fugia dos padrões de movimentos fluidos e detalhismo nos planos de ação daqueles seus contemporâneos desenhos japoneses como Macross, Patrulha Estelar e Zillion.

    O que eu penso é que isso se torna bem mais uma tendência de mercado, que nada mais é do que uma resposta à aceitação do público. Assim como nos anos oitenta imperou esse estilo de animação e nos anos noventa a arte rachurada e altamente sombreada (peculiar dos quadrinhos estadunidenses), a partir do ano 2000, com a invasão anime, o padrão a ser seguido foi Naruto/Pokémon. Desenhos como Avatar e Ben 10 não diferem, em termos de qualidade de traços, de Thundercats.

    No frigir dos ovos, abri mão da minha resistência inicial com o estilão animê assim que percebi uma história elaborada e que mantinha meu interesse sobre os personagens. Acho que esse é o ponto predominante no novo desenho e é o que o difere essencialmente do original.

    Sobre a rivalidade dos irmãos, acho que o termo mais apropriado realmente seria “deixada de lado” porque ela é arranhada em alguns momentos, como no quarto episódio em que Panthro questiona a decisão de Lion entrar na floresta e manda algo como “eu ainda sou seu irmão mais velho”. Mas pelo que senti, não sei se vão explorar essa questão aprofundadamente depois. Veremos.

    Gostei de sua lembrança sobre as repetições de cenas. Elas realmente acontecem no desenho novo. Não só na questão do uso de planos parecidos (como a já citada cena de Lion empunhando a Espada Justiceira), mas também no fato de usarem uma mesma sequência duas ou três vezes no mesmo episódio (a invasão dos lagartos a Thundera é cheia disso). Claro que isso não deixa de ser economia de produção, mas também é algo que fica vinculado à memória afetiva de quem viveu nos anos 80 e tinha que acompanhar, por exemplo, o He-Man pulando e rolando no chão, de um lado para o outro, a cada cinco minutos.

    Posted by Max Augusto on 02 September 11 at 8:17am [Reply]
  3. Onde eu disse “phantro”, leia-se “Tygra”. My bad.

    Posted by Max Augusto on 02 September 11 at 9:27am [Reply]
  4. Max, adorei a resenha, apesar de discordar em dois pontos, que para mim são essenciais. O primeiro é em relação a qual das séries é a melhor. O certo seria dizermos que sem equivalem. É óbvio que há aqueles (assim como eu) que preferem o original, ainda que com todas as falhas, mas nada que gere uma discussão. O segundo ponto, que pra mim é crucial, é o fato de Snarf ser agora um bicho de estimação. Acho que o personagem, assim como a série, perdeu alguém especial. Snarf, pra mim era a ligação de Lion-O com o universo adulto, na série original, o que só provaria a ideia de torná-lo um bicho de estimação, já que ele (Snarf) era a babá de Lion-O em Thundera.

    De resto, concordo com os aspectos da história, apontados em seu post, bem como o fato de retirarem a rivalidade entre os irmãos (poderiam ter explorado mais). Mas faltou mencionar uma coisa. Tygra era um nerd na história original, e hoje se tornou um playboy/mauricinho, isso sim me deixou desconfortável.

    Gostaria de adicionar umas coisas. Não sei se percebeu (deve ter percebido sim) a presença de tecnologia usada em Silverhawks, como os discos do Cooper Kid que estavam presentes no primeiro episódio. Na verdade, mais na semelhança que em função mesmo.

    Ficamos no aguardo nessa temporada que, pra mim, será um resumão de toda a saga dos Thundercats, iniciando assim, após seu término, novas histórias.

    Abraços e meus parabéns pelo post.

    Posted by Giovanni on 03 September 11 at 11:15pm [Reply]
  5. Valeu, Giovanni!

    Bacana essa correlação com SilverHawks (no sexto – ou seria sétimo? – episódio desta temporada até houve menção direta ao universo dos falcões-cowboys-prateados-do-espaço).

    Mas só pra deixar claro, hein? Não disse que uma série é melhor que a outra, mas que em alguns momentos, eu prefiro a solução encontrada pela história da animação atual, que se preocupa mais em desenvolver os personagens, dando-lhes conflitos pessoais mais interessantes.

    Dizer que a animação atual supera a anterior seria até maldade em certo sentido, já que tudo que é feito hoje é baseado no grande material que foi criado lá no desenho original.

    Já deu pra notar também que – após serem exibidos alguns episódios pós-publicação do texto – a mitologia dos Thundercats tá crescendo bastante. O pessoal não se preocupou só em dar uma nova cara no visual, mas em evoluir os conceitos anteriores. Tirando um ou outro episódio, a média geral da animação atual tá muito bacana.

    Abraços e valeu mesmo pelos comentários.

    Posted by Max Augusto on 30 September 11 at 11:52am [Reply]

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