Reveja o Filme

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Posted 26 August 2011   Cinema, Crítica, Cultura

No cinema trabalha-se com números astronômicos e não falo aqui só de valores de orçamento, mas sim de possibilidades. Quem redigiu bastante sobre essa noção foi o grande editor Walter Murch, que em seu livro In The Blink of an Eye chegou a formatar uma fórmula matemática que demonstrava as diversas maneiras que as imagens podem ser combinadas em um filme.

Então peguemos por exemplo o novo filme do Terrence Malick A Árvore da Vida. Notório por filmar rolos e rolos de material que quase nunca acabam na edição final, o diretor supostamente captou quase 364.5 horas de filme para este projeto, algo que ainda não foi confirmado, mas apenas citado pelo editor Emmanuel Lubezki em uma recente matéria na Cahiers du Cinema.

É muito material. Tanto material que chega a ser quase impossível pensar em uma metodologia de trabalho para uma edição dessas.

Cena do Koyaanisqatsi

Agora, voltando ao Murch. Seguindo sua fórmula para uma cena feita de, por exemplo, 25 takes, o resultado do número de possibilidades de montagens possíveis é absurdo. Essa questão quase infinita de como um filme pode ser montado apenas demonstra o quão complexo é unir essa narrativa que chega a tela de cinema. Os 138 minutos do corte final do A Árvore da Vida que você assiste ali no cinema são a síntese mais possível de um fluxo de pensamento gigantesco. Você pode até pinçar os temas notórios da filmografia do Malick ali: a perda da inocência (o casal assassino do Terra de Ninguém, a criança que testemunha a traição e a cólera no Cinzas do Paraíso, quase todos os soldados no Além da Linha Vermelha) , a dimensão da natureza contra o homem, a discussão teológica e existencial dos personagens. Mas há mais ali. Imagens que precisam de mais uma leitura. Simbolismos que podem te levar a outras ideias e reflexões.

Portanto, o quanto você consegue realmente absorver nessa sessão de cinema ?

Claro que cada pessoa tem um tipo de recepção para cada tipo de filme, mas acredito veemente que o A Árvore (…) é um daqueles casos em que é necessário rever o filme. Talvez um dia ou uma semana depois. Ou quem em sabe em dez anos. É como tentar explicar o Koyaanisqatsi em um minuto. Ou o Stalker em uma frase. Até mesmo se contentar com apenas uma passada de olho no Cidadão Kane. O que pra mim prova o quão complicado é o formato da crítica de cinema.

Na verdade, provocando ainda mais: olhe sua coleção de filmes, quantas vezes você já os reviu?

Numa enquete rápida no twitter vi que tem gente que já reviu até 40 vezes o mesmo filme e alguns outros até confessam que assistiriam infinitamente filmes de coleções que eles gostam (vide Star Wars).

Você reviu aquele filme porque quis compreender melhor o final? Ou porque realmente adora tudo nele? O que te faz rever aquilo? É a satisfação de rever aquela história em especial ou de o quê aquele filme representa em sua vida?

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