A incrível arte dos planos-sequência
Há pouco saído de cartaz, o (fraco) suspense uruguaio A Casa (La Casa Muda – dir. Gustavo Hernández, 2010) tem como seu maior atrativo o fato de ter sido filmado em um único plano-sequência de 88 minutos. As informações sobre o filme contam que seu orçamento foi de U$ 6.000,00 e que as filmagens duraram 4 dias. Este último dado, aliás, confirma o que o espectador mais atento deve notar durante a projeção: o marketing é enganoso e o filme não se passa em um único take.
A crítica já citou anteriormente e vale lembrar: o diretor Gustavo Hernández toma mão do mesmo recurso do qual Hitchcock se aproveitou para filmar Festim Diabólico (Rope, 1948), criando a falsa impressão de que seu filme não fora editado posteriormente. Ledo engano. Os cortes estavam lá, entre o fim e o início de takes em um fundo escuro, por exemplo. Acontece que no caso do mestre do suspense, a trucagem foi obra da limitação tecnológica da época (as câmeras não conseguiam realizar takes longos como as digitais de hoje). Já em A Casa ouso dizer que é mera perfumaria, não fugindo do vazio (na minha humilde opinião) uso da técnica pela técnica, como o foi em A Arca Russa (Russian Ark, Aleksandr Sokurov – 2002).
Os longos planos foram decantados principalmente pelos adeptos do “realismo cinematográfico”. Os planos-sequência, quando usados em proveito da história, são de fato ferramente valiosíssima para trazer maior imersão à narrativa (uma vez que os cortes podem “cortar” – com o perdão do trocadilho – toda a fluidez daquele momento). Tanto no terror uruguaio quanto em Arca Russa o resultado é o inverso disso. Esse esforço em manter um único take durante toda a projeção acaba por furtar a atenção do espectador prejudicando a apreciação do conteúdo da obra (ainda que no filme de Hernández não haja muito o que se apreciar).
Em A Marca da Maldade (The Touch of Evil – Orson Welles, 1958), Feira das Vaidades (Bonfire of Vanities – Brian de Palma, 1990) e O Jogador (The Player – Robert Altman, 1990) o espectador já é jogado na história de imediato, com sequências de abertura completas, realizadas em um único take, em que somos apresentados ao mundo, aos personagens e às situações que serão esmiuçados no decorrer de cada obra. Claro, pra maioria do público, essas sequências talvez não sejam percebidas de cara, o que não deixa de ser um tremendo mérito para seu realizador.
No meu caso, assim como de muitos, após presenciar um desses longos takes ainda fica ressoando na cabeça aquela perguntinha danada: “como diabos ele fez isso?” Depende de muito planejamento, ensaio e suor, alguns podem responder. Mas talento do responsável também.
Deixo aqui minha lista de grandes exemplos no trato dessa técnica (clicando no nome de cada filme, você será redirecionado à sequência mencionada).
1) Filhos da Esperança (Children of Men – Alfonso Cuarón, 2006) é um excelente filme por si só. Uma ficção científica de ação com contornos extremamente dramáticos. O futuro apocalíptico para a humanidade não cai em fatores comuns (ou bíblicos) como guerras ou epidemias mundiais. A humanidade está à beira da extinção porque não pode mais se reproduzir. Por mais belo que seja o filme, a fama de três momentos-chaves precede a da própria obra do diretor Cuarón. São três cenas (perto da metade, o clímax e uma breve interseção entre esses dois momentos) rodadas em planos-sequência em que a câmera não se acomoda nunca. A urgência desses momentos casa perfeitamente com o conteúdo da estória.

2) Em Os Bons Companheiros (The Goodfellas – 1990), Martin Scorcese, apoiado também em seu esmero na iluminação de cena, nos mostra “as virtudes” da vida de um gângster bem-sucedido num único take de três minutos. Vale lembrar que, apesar de sua genialidade, é uma cena que compartilha do mesmo escopo e bom resultado da obra contemporânea de De Palma, Bonfire of Vanities. Mais tarde, com o mesmo intuito de apresentar a mise en scène, Paul Thomas Anderson (discípulo declarado do já citado Robert Altman) depurou esse estilo, na sequência de abertura de Boogie Nights (1997).

3) No neoclássico Oldboy (Chan-Wook Park – 2002), há a inesquecível cena da briga com o martelo, que homenageia os clássicos games beat´em up 2D da era 16 bits. Principalmente, Double Dragon. Na carona do cinema oriental, vale conferir, ainda, John Woo no melhor de sua forma, na intensa sequência do tiroteio no hospital, em Fervura Máxima (Hard Boiled nos EUA e Lat Sau San Taam no original – 1992).
4) Desejo e Reparação (Atonement, Joe Wright – 2007), além de ser um belo romance fatalista (que critica, em subtextos, a magia do açucarado e otimista cinema de romance norte-americano), entrega talvez o maior plano-sequência da história do cinema. Digo isso em termos de escala, já que trata da retirada das tropas britânicas na 2ª Guerra Mundial, contando com um sem número de figurantes, entre homens, veículos, animais e rodas gigantes, além de um breve e tocante número musical. Memorável.
E você, amigo leitor? Sentiu falta de alguma sequência e acredita que ela não deveria ter ficado de fora dessa lista? Acha que numa lista dessas, nomes como Michelangelo Antonioni, Brian De Palma e Paul Thomas Anderson deveriam ser mais exaltados? Por favor, manifeste-se nos comentários abaixo.










Sempre fui um admirador de planos-sequência, são uma ótima ferramenta de tensão. O melhor de todos pra mim é a sequência inicial do já citado “A Marca da Maldade” do Orson Welles – aquilo é genialidade pura – também acho que vale lembrar daquela sequência de “Os Intocáveis” do Brian de Palma em que a casa do Malone (personagem de Sean Connery) é arrombada. “A Arca Russa” é realmente um filme enfadonho, mas a cena do baile é algo a se tirar o chapéu, apesar de concordar com você que não leva a nada em termos de linguagem. Outra sequência no mínimo genial é a abertura de “Janela Indiscreta” do Hitchcock, que além de ser um plano sequência vouyerístico, consegue apresentar tudo o que você precisa saber sobre o personagem principal sem uma fala sequer.
Ah é, tem ainda o plano sequência de “Paisagem na Neblina” do Theo Angelopoulos em que a menina é estuprada por um caminhoneiro… uma cena extremamente simples e sintética e mesmo assim continua sendo das mais fortes que eu já vi!
Bem lembrado, Freddy. “Paisagem na Neblina” em vários momentos é um ótimo exemplo da construção da tensão em um único take. Exemplo parecido ao da cena do caminhoneiro (sem entrar nos méritos de cada película) é toda a sequência que culmina na cena do estupro em “Irreversível” de Gaspar Noé. Cada sequência, à sua maneira (mostrando ou só insinuando), consegue me trazer as mesmas sensações de desconforto, impotência e fraqueza.