Lanterna Verde (2011)

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Posted 22 August 2011   Cinema, Crítica, Cultura

 

ATENÇÃO: o texto trata abertamente de momentos-chave da narrativa. Portanto, contém spoilers. Esteja avisado, ok?

Não dá para dizer que Lanterna Verde (Geen Lantern, Martin Campbell – 2011) seja um fiasco como muitos já afirmaram. Mas também está longe de ser dos melhores exemplos de adaptação cinematográfica de quadrinhos. É tudo tão ligeiro e morno no filme que nunca se atinge o ponto de emocionar, em algum nível, o espectador. O desenhista Ivan Reis, que, ao lado do escritor Geoff Johns, foi responsável pelos traços das HQs do herói e de grandes sagas da DC Comics nos últimos anos, declarou na pré-estreia do filme que a ideia da Warner Bros era construir uma saga mais infantil e inocente e amadurecer a história à medida que a molecada que o assistisse também amadurecesse. A mesma estratégia usada em Harry Potter. Só se esqueceram de um porém: e se ninguém assistir?

Para quem desconhece, somos apresentados à história de Hal Jordan (Ryan Reynolds), um piloto habilidoso e irresponsável que é escolhido por uma força alienígena para substituir Abin Sur (Temuera Morrison), guerreiro caído da Tropa dos Lanternas Verdes, guardiões da paz e da justiça no universo. Agora, Jordan terá que aprender a lidar com seus poderes, que são limitados apenas por sua imaginação e força de vontade, e se preparar para enfrentar Parallax (voz de Clancy Brown, o eterno Victor Kruger/Kurgan de Highlander), um adversário formidável que vem destruindo civilizações inteiras por onde passa e que agora ameaça consumir toda a vida existente na Terra.

O filme sofre com vários problemas, sendo que o primeiro deles é a equivocada estratégia de marketing da Warner Bros. Você, como eu, deve se lembrar daquele primeiro trailer, divulgado em novembro de 2010, que apresentava um filme bem mais próximo da aventura leve e cheia de tiradas engraçadinhas de Quarteto Fantástico do que da ficção científica de ação que passou a ser vendida a partir do extenso vídeo divulgado na WonderCon 2011. A reação negativa do público diante do primeiro vídeo oficial foi determinante para que a Warner Bros alterasse sua estratégia e passasse a focar sua campanha de divulgação no universo esmeralda de Lanterna Verde. Todos os vídeos seguintes mostravam o treinamento de Hal Jordan em Oa, o visual do planeta dos Guardiões, o design de inúmeros outros Lanternas Verdes. Isso nos fazia acreditar que o filme se focaria na Tropa e nas infinitas possibilidades que dali poderiam surgir e não só naquele lugar comum do “filme de origem de super-herói”.

Mas não. Lanterna Verde tem um elaborado design de personagens que é pouquíssimo aproveitado. Na verdade, todos os momentos da Tropa dos Lanternas Verdes já haviam sido revelados antes mesmo da estreia nos cinemas. Além do treinamento de Hal em Oa, não há muito mais que os guerreiros esmeralda acrescentem à rasa e previsível trama da descoberta de poderes, superação de medos e construção de um super-herói.

Dito isso, passemos ao que Lanterna Verde realmente é: aquele já dito filme de origem bem mais rasteiro do que o usual. E aí é que entra o seu maior problema: o roteiro. Por ter tantos elementos a explorar, o roteiro tenta condensá-los numa sucessão de situações que não guardam relação entre si. Primeiro exemplo disso é a idiótica cena em que Hal acaba de fazer uma manobra incrível com seu jato, provando toda sua coragem e habilidade, quando, sem qualquer motivo, toma NA CARA um flashback da morte de seu pai, só pela conveniência e urgência dos roteiristas em mostrar os medos do protagonista já logo nos minutos iniciais. Da mesma forma, ao invés de demonstrar a magnitude doPoder Amarelo do Medo que move o Parallax, o roteiro se reduz a uma citação por Sinestro sobre o fato de o monstro ter devorado dois planetas depois de sua fuga de Ryut, no Setor Perdido do universo.

Engraçado que essa mesma decantada urgência não aparece em outros momentos em que seu uso seria proveitoso: Hal foi levado pela energia do anel ao encontro do moribundo Abin Sur e recebeu suas instruções como novo Lanterna Verde. Pronto. Precisava mesmo que o cara ligasse para Tom, o esperasse até o local do acidente só para quando o amigo chegar, Hal o receber com um “Ei, ei, ei, nós temos que ir”? Aliás, o tal Tom não presta serventia alguma à trama, a não ser por um (ridículo) alívio cômico (sem necessidade, já que o próprio Ryan Reynolds se encarrega das piadas mais interessantes).

Se não fosse bastante, o roteiro ainda sofre de uma falta de coerência que não dá para aceitar: qual sentido há em Hal ir até Oa, pedir ajuda a Sinestro e aos Guardiões para – dali a dois segundos – mudar de ideia, fazer um discurso sobre enfrentar seus medos, pedir autorização para lutar sozinho (?) e então partir sem qualquer resultado para encarar Parallax na Terra? Antes ficasse em casa sem qualquer aviso e fizesse o que fez, não teria mudado em nada a estória.

Martin Campbell (que já fez coisas muito interessantes como Cassino Royale e outras nem tanto, como Amor Sem Fronteiras) também não se esforça para extrair qualidade do filme. Ao invés de optar por cenas de impacto e que teriam relevância na história (o diretor não mostra a queda da nave de Abin Sur na Terra, por exemplo), prefere se delongar em momentos que não fazem falta alguma (é uma bobagem tremenda a cena em que Hal mostra ao amigo Tom o quão cool seu uniforme é).

E, mesmo quando roteiro e diretor acertam, insistem em errar. Explico. O que há de melhor em Lanterna Verde se resume a dois personagens e seus respectivos intérpretes: o Hector Hammond de Peter Saarsgard e o Sinestro de Mark Strong. Ao primeiro, Saarsgard confere um interessante tom de gênio excluído social que, quando passa a sofrer os efeitos da energia amarela, regozija-se em finalmente poder-se vingar de todos à sua volta. Já Mark Strong, em poucas cenas, já consegue impor o respeito e temor que Sinestro é capaz de causar nos demais Lanternas.

 

Contudo, é lamentável como o roteiro reduz Sinestro a um Lanterna com o dom da oratória, que sempre está lá motivando a tropa ou argumentando com os Guardiões sobre a necessidade de destruir Parallax. Mas quando finalmente tem a chance de agir, algo impede que vejamos todo o seu poder. Não há motivos para isso, a não ser o óbvio limite do budget (vide a rápida cena em que Sinestro finalmente reúne seu “grupo de elite” de Lanternas e parte para frear o avanço de Parallax. Quando se defrontam com o inimigo, a cena é interrompida por um breve relato do próprio Sinestro lamentando a derrota esmagadora que sofreram para a criatura).

Da mesma forma, o interessante Hector Hammond é suprimido no ato final somente para que possamos ver o embate decisivo de Hal Jordan com Parallax. Este último, aliás, é outro grande desperdício de potencial. A criatura mais avassaladora do universo DC em momento algum faz o espectador temer pelo destino da Terra.

Por fim, a trilha sonora de James Newton Howard está lá simplesmente para acompanhar as cenas, sem causar qualquer impacto maior. Desinteressante e esquecível. Já os efeitos visuais, apesar de bem feitos em sua maioria, acabam por resultar num ar de video game que não sei dizer ainda se é bem-vindo à produção.

A questão colocada lá no primeiro parágrafo talvez seja um exagero. Ninguém é pouquíssima gente. Mas o fracasso nos cinemas estadunidenses foi clamoroso e consequência direta dos erros cometidos pela produção. Claro que a venda de produtos relacionados (de bonequinhos em redes de fast food a uniformes emborrachados com músculos de espuma) vai ajudar a cobrir o prejuízo. E a Warner já declarou a intenção de fazer uma sequência. Espero sinceramente que aprendam com os erros e convoquem um diretor (Campbell não tem contrato para uma continuação) que dê a intensidade e personalidade que faltaram a este primeiro filme. Povoar os cinemas com produções medianas, conduzidas no piloto automático, pode até ser algo comum no mercado, mas quando o público não engole essa mediocridade, deixando vazias as salas de exibição, há a grande chance de as produtoras reverem seus conceitos.

A dúvida é quando a Warner Bros vai deixar de só aprender e finalmente começar a acertar, com uma certa regularidade, em suas adaptações de quadrinhos.

Alguém disse “Contrato vitalício com Cristopher Nolan”?

 

Lanterna Verde (Green Lantern). Direção Martin Campbell. Com Ryan ReynoldsBlake LivelyPeter Sarsgaard.

Estreou no último dia 19 de agosto

1 Comment

  1. Eu nunca fui grande fã do Lanterna Verde porem sei o basico sobre o HQ!
    A História do filme e fraca, e a cheio filme muito curto/Rapido porem acabei gostando bastante do filme… As Sequência podem ser Otimas.

    Ryan Reynolds participa de varios filmes bons porem e Muito Fraquinho.

    Posted by MrJTCarioca on 22 October 11 at 9:03pm [Reply]

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