A magia oitentista da Amblin Entertainment

Há um quê de singelo e mágico na visão infantil sobre o mundo ao seu redor, seja ele (o mundo) realista ou até mesmo fantástico. Spielberg, principalmente no início de sua carreira, apostou muito nessa ideia. E.T. – The Extra Terrestrial (1982) foi seu ápice neste sentido e através de sua produtora, Amblin Entertainment (em sociedade com Kathleen Kennedy e Frank Marshall), Spielberg apostou em outros realizadores que também compartilhavam dessa ideia. E foi de lá que viu nascer o clássico oitentista Os Goonies (The Goonies, Richard Donner – 1985).
Em Os Goonies o que encanta é a exata medida entre o mundano e o extraordinário: acompanhamos aquele grupo de heroizinhos camaradas tão humanos e cheios de problemas como nós (o Gordo fez tanta coisa ruim na vida…), que se superam ao enfrentar desafios inimagináveis (ladrões, armadilhas piratas e Slot!)
A Amblin, principalmente nos anos 80, simbolizou o modo que o próprio Spielberg acreditava ser o certo para se fazer filmes. Além do elemento fantástico, que permeava volta e meia as produções do estúdio, havia principalmente a dedicação em se criar uma alma para cada filme. Essa alma ficava nos personagens e nos conflitos pessoais que os moviam, ainda que eventos em larga escala estivessem acontecedo à sua volta. E foi por isso que eu me preocupei bem mais com a possibilidade de Marty McFly não conseguir salvar o passado/presente/futuro de seus entes queridos do que se efetivamente ele e Doc Brown conseguiriam retornar para o seu tempo em De Volta Para o Futuro.
Da mesma forma, por mais divertido que fosse acompanhar o humor negro da infestação de criaturinhas danadas em Gremlins, acredito que não me empolgaria tanto com a ideia se não tivesse me afeiçoado primeiro à história do rapaz que tinha uma ótima família, mas teve que aprender da forma mais complicada sobre cuidado e responsabilidade, ao ganhar o fofinho Gizmo como presente de Natal. Em O Milagre Veio do Espaço, os extraterrestres em forma de pequenas naves são o ingrediente extraordinário na já mágica metáfora estabelecida entre o condomínio que deve ser derrubado e seus habitantes pobres e desiludidos, cada qual à sua forma excluído da sociedade (idosos no fim da vida, uma latina mãe solteira, um pintor incompreendido e um ‘zelador’ que aparenta ter problemas psicológicos).
O fato é que quando eu via a chamada da Globo, que começava com “Uma produção de Steven Spielberg”, meus olhos brilhavam de cara porque sabia que mesmo correndo o risco de chegar atrasado à aula na terça de manhã, eu poderia ficar até mais tarde à frente da TV na noite anterior, na companhia de minha mãe, que me autorizava a ver o filme com um “se é do Spielberg, é bom né?”. Ainda que enganada quanto às funções no circo hollywoodiano (ela e nem eu precisávamos saber a diferença entre produção e direção), minha mãe me acompanhava naquela jornada fantástica só porque o nome do produtor estava ali avalizando a obra.
Eu, garoto do interior, infelizmente não tive a constante oportunidade de ver cada um desses filmes no cinema. Talvez por isso, quando pude assistir numa sala escura a Jurassic Park (1993), acompanhado de primos e tios que fui visitar noutra cidade interiorana (notadamente mais urbanizada), o impacto tenha sido tão tremendo. Era Spielberg fazendo sua mágica uma vez mais, desta vez numa tela gigante a duas fileiras à minha frente. E as crianças da história (ainda que aquela menina fosse insuportável) me permitiam acreditar que poderia ser eu naquele lugar.
Uma pena que essa aura em torno dos projetos da Amblin foi-se perdendo com o tempo, principalmente após o surgimento da DreamWorks SKG, ainda que nos anos 2000 Spielberg tenha recorrido ao selo de sua primeira empresa em boas produções com aquele tom de fantasia juvenil, tais como A.I. – Inteligência Artificial (com mais um dos idióticos subtítulos redundantes brasileiros) e A Casa Monstro (exemplar genuíno dos anos 80 em pleno ano de 2006).
O estúdio continua na ativa, produzindo esporadicamente seus filmes (em especial, alguns dos últimos exemplares do cinema de Clint Eastwood, como Cartas de Iwo Jima e Além da Vida), mas espero que com o sucesso de Super 8 (idem, J.J.Abrams – 2011), produções com a cara e a alma da Amblin sejam vistas com mais frequência nas salas escuras de cinema. Minha criança interior será eternamente grata.











Perfect as always, Max. Seus textos me fazem ter mais vontade de ver os filmes e os que eu já vi, consigo ver todas as cenas que cita. Adoro seus textos.
Bjos
Excelente matéria , inteligente e esclarecedora.Parabéns ao autor.