A magia oitentista da Amblin Entertainment

goonies-1985-04-g
Posted 18 August 2011   Cinema, Cultura, Editorial

 

Há um quê de singelo e mágico na visão infantil sobre o mundo ao seu redor, seja ele (o mundo) realista ou até mesmo fantástico. Spielberg, principalmente no início de sua carreira, apostou muito nessa ideia. E.T. – The Extra Terrestrial (1982) foi seu ápice neste sentido e através de sua produtora, Amblin Entertainment (em sociedade com Kathleen Kennedy e Frank Marshall), Spielberg apostou em outros realizadores que também compartilhavam dessa ideia. E foi de lá que viu nascer o clássico oitentista Os Goonies (The Goonies, Richard Donner – 1985).

Em Os Goonies o que encanta é a exata medida entre o mundano e o extraordinário: acompanhamos aquele grupo de heroizinhos camaradas tão humanos e cheios de problemas como nós (o Gordo fez tanta coisa ruim na vida…), que se superam ao enfrentar desafios inimagináveis (ladrões, armadilhas piratas e Slot!)

A Amblin, principalmente nos anos 80, simbolizou o modo que o próprio Spielberg acreditava ser o certo para se fazer filmes. Além do elemento fantástico, que permeava volta e meia as produções do estúdio, havia principalmente a dedicação em se criar uma alma para cada filme. Essa alma ficava nos personagens e nos conflitos pessoais que os moviam, ainda que eventos em larga escala estivessem acontecedo à sua volta. E foi por isso que eu me preocupei bem mais com a possibilidade de Marty McFly não conseguir salvar o passado/presente/futuro de seus entes queridos do que se efetivamente ele e Doc Brown conseguiriam retornar para o seu tempo em De Volta Para o Futuro. Da mesma forma, por mais divertido que fosse acompanhar o humor negro da infestação de criaturinhas danadas em Gremlins, acredito que não me empolgaria tanto com a ideia se não tivesse me afeiçoado primeiro à história do rapaz que tinha uma ótima família, mas teve que aprender da forma mais complicada sobre cuidado e responsabilidade, ao ganhar o fofinho Gizmo como presente de Natal. Em O Milagre Veio do Espaço, os extraterrestres em forma de pequenas naves são o ingrediente extraordinário na já mágica metáfora estabelecida entre o condomínio que deve ser derrubado e seus habitantes pobres e desiludidos, cada qual à sua forma excluído da sociedade (idosos no fim da vida, uma latina mãe solteira, um pintor incompreendido e um ‘zelador’ que aparenta ter problemas psicológicos).

O fato é que quando eu via a chamada da Globo, que começava com “Uma produção de Steven Spielberg”, meus olhos brilhavam de cara porque sabia que mesmo correndo o risco de chegar atrasado à aula na terça de manhã, eu poderia ficar até mais tarde à frente da TV na noite anterior, na companhia de minha mãe, que me autorizava a ver o filme com um “se é do Spielberg, é bom né?”. Ainda que enganada quanto às funções no circo hollywoodiano (ela e nem eu precisávamos saber a diferença entre  produção e direção), minha mãe me acompanhava naquela jornada fantástica só porque o nome do produtor estava ali avalizando a obra.

Eu, garoto do interior, infelizmente não tive a constante oportunidade de ver cada um desses filmes no cinema. Talvez por isso, quando pude assistir numa sala escura a Jurassic Park (1993), acompanhado de primos e tios que fui visitar noutra cidade interiorana (notadamente mais urbanizada), o impacto tenha sido tão tremendo. Era Spielberg fazendo sua mágica uma vez mais, desta vez numa tela gigante a duas fileiras à minha frente. E as crianças da história (ainda que aquela menina fosse insuportável) me permitiam acreditar que poderia ser eu naquele lugar.

Uma pena que essa aura em torno dos projetos da Amblin foi-se perdendo com o tempo, principalmente após o surgimento da DreamWorks SKG, ainda que nos anos 2000 Spielberg tenha recorrido ao selo de sua primeira empresa em boas produções com aquele tom de fantasia juvenil, tais como A.I. – Inteligência Artificial (com mais um dos idióticos subtítulos redundantes brasileiros) e A Casa Monstro (exemplar genuíno dos anos 80 em pleno ano de 2006).

O estúdio continua na ativa, produzindo esporadicamente seus filmes (em especial, alguns dos últimos exemplares do cinema de Clint Eastwood, como Cartas de Iwo Jima e Além da Vida), mas espero que com o sucesso de Super 8 (idem, J.J.Abrams – 2011), produções com a cara e a alma da Amblin sejam vistas com mais frequência nas salas escuras de cinema. Minha criança interior será eternamente grata.

2 Comments

  1. Perfect as always, Max. Seus textos me fazem ter mais vontade de ver os filmes e os que eu já vi, consigo ver todas as cenas que cita. Adoro seus textos.
    Bjos

    Posted by Patrícia on 18 August 11 at 8:15pm [Reply]
  2. Excelente matéria , inteligente e esclarecedora.Parabéns ao autor.

    Posted by Isaias on 28 August 11 at 8:09pm [Reply]

Leave a Reply