Super 8 (2011)

Super-8-1
Posted 15 August 2011   Cinema, Crítica, Cultura

Na sexta-feira passada tive a oportunidade de reviver uma viagem que não acompanhava há uns bons 17 anos. Lembrei-me de uma época em que minha imaginação fértil era bem mais relevante do que a alta do dólar ou a posição política dos EUA sobre o petróleo no Oriente Médio. Fui transportado diretamente para quando eu e meus primos nos desafiávamos, no meio da noite, a adentrar no breu do quintal da casa dos meus avós, munidos apenas de algumas lanternas, cabos de vassoura e de uma coragem questionável, à procura de noivas tristes em branco ou algum alienígena cabeçudo verde que nunca estavam por lá.

Entre os quadrinhos de Heróis da TV e os livros de Monteiro Lobato, talvez a maior fonte dos meus delírios imaginativos fossem os filmes que devorava quase que em tempo integral, pausados somente no horário de aula e no confisco noturno da TV pelos meus pais, que tinham de assistir à maratona diária das novelas globais.

Posso citar uma variedade fílmica que povoou não só os meus, como muitos dos dias de cada um que cresceu nos anos 80. Entre o terror do escuro trazido por Alien – O Oitavo Passageiro e o regozijo de pegar aquele bully f.d.p. do colégio em Te Pego Lá Fora, havia um nicho complexo que reunia tudo o que traduzia em imagens e estória meus mais elaborados pensamentos infanto-juvenis. Eram os filmes de Spielberg e de sua Amblin Entertainment.

Super 8 (idem, J. J. Abrams – 2011) fez minha criança interior pular e gritar na cadeira. A obra bebe da fonte dos filmes oitentistas, em especial os da Amblin, sem medo de se fartar. O próprio Abrams nunca escondeu a influência do “modo spielberg” no seu jeito de fazer cinema. Em Mission: Impossible III, pela primeira vez conhecemos a vida pessoal do agente Ethan Hunt e o mote principal não é uma teoria conspiratória ou uma ameaça terrorista de proporções globais, mas sim a corrida desesperada do personagem principal para salvar a mulher amada.

Tá tudo lá em Super 8: os amigos inseparáveis, primeiro amor, conflito pai e filho, bicicletas, a bagunça familiar no café da manhã e algo absurdamente fantástico bem ali à espreita. Mas nem por isso se trata de regurgitar os elementos antigos, mas sim de homenagear com vigor e dinâmica atuais surpreendentes. As cenas de ação que Abrams filma são sempre impactantes (a correria da criançada em pleno descarrilamento do trem é algo tenso e avassalador) e o drama vivido pelo casal principal é realmente de tocar o coração.

As menções óbvias a ET – O Extraterrestre e Os Goonies são válidas. Só que em relação ao segundo, vale lembrar que o filme de JJ Abrams traz crianças que são obrigadas a amadurecer diante da morte, uma realidade bem mais dolorosa do que o simples risco de terem que se mudar de suas antigas casas. Por essa razão, em se tratando de amizade infantil e da busca pelo desafio, Super 8 guarda mais relação com Conta Comigo (Stand by Me, Rob Reiner – 1986) do que com o filme de Richard Donner.

O fato é que Abrams soube apreender as grandes lições de Spielberg em seu trabalho. E isso, antes de ser mera cópia, é saber discernir o que funciona e o que não funciona na tela. A câmera sempre se mantém na perspectiva mais baixa das crianças, a trilha sonora de Alexandre Desplat (que também compôs as belas trilhas dos últimos Harry Potters) sabe ter a simplicidade infantil sem se esquecer da grandiloquência nos momentos que a clamam e Abrams herdou a habilidade de construir cenas tensas como só o professor sabe fazer.

Aqueles que decantam que há demérito na homenagem aos filmes de Spielberg esquecem-se, primeiro, que homenagem não é cópia e, segundo, que há muito esmero cinematográfico em Super 8. Se por um lado há ótimas referências visuais a Tubarão, Jurassic Park e Contatos Imediatos de 3º Grau (o cartaz do filme é uma composição de imagens clássicas de Close Encounters…), por outro, há menções a clássicos pop aparentemente aleatórios, como The Host (O Hospedeiro, Joo-ho Bong – 2006) e a obra de George Romero.

E Abrams não tem medo de se socorrer ao próprio arsenal: é inegável que o clima de mistério está bem mais próximo de Lost, que o conceito visual da criatura tem muito da criação de Cloverfield (Matt Reeves – 2008) e que o clímax do filme é bem mais intenso e agressivo do que se espera das referências oitentistas. O filme transpira sinceridade em cada tomada que Abrams realiza, senão o que dizer do apaixonante take em que Elle Faning (a irmã verdadeiramente talentosa de Dakota), vivendo sua personagem no zombie movie que as crianças filmam, declama que não conseguiria viver longe de seu amor?

Subtraindo toda a empolgação e o deslumbre emocional, talvez eu consiga respirar, pensar um pouco e tirar alguns (poucos) pontos do apoteótico final, que não explica muito bem certos atos da criatura e traz uma solução rápida do conflito familiar. E ainda que o clímax guarde cenas que obrigam você a lembrar de imediato do fraco Guerra dos Mundos, o resultado é extremamente positivo. Por mais rápida que seja a solução da relação pais/filhos, ela fecha o arco dos personagens de forma satisfatória e poética.

E é por isso que o exagero visual que é reservado para o final, no meu sentir, foi incompreendido por alguns. É o perfeito contraste com o mundo singelo das crianças. E quando a câmera, finalmente, se fecha no abraço dos personagens e nas mãos entrelaçadas do casal de protagonistas, tenha a certeza de que Abrams realizou uma ode sincera ao que há de mais belo no cinema.

Super 8 (idem). Direção de J.J. Abrams. Com Elle FanningAmanda Michalka e Kyle Chandler

Estreou neste última dia 12 de agosto de 2011

1 Comment

  1. Uma correção: O compositor da trilha sonora não é Alexandre Desplat (que realmente responsabilizou-se pelas trilhas dos últimos Harry Potters), mas sim o habitual parceiro de J.J.Abrams em suas produções (de Lost a Star Trek), o sempre excelente Michael Giacchino. Mea culpa.

    Posted by Max Augusto on 17 August 11 at 9:05am [Reply]

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