Potiche (2010)

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Posted 17 July 2011   Cinema, Crítica, Cultura

Catherine Deneuve e Gérard Depardieu no novo filme de um dos mais respeitados cineastas franceses da atualidade, François Ozon. O que pode dar errado? Bem, muita coisa, mas vamos por partes.

Potiche conta a história de Suzanne Pujol (Deneuve), uma esposa aparentemente recatada, herdeira de uma fábrica de guarda-chuvas administrada por seu marido autoritário Robert (Fabrice Luchini). Durante uma revolta do sindicato, Robert é mantido preso pelos grevistas, o que leva Suzanne a procurar o deputado comunista Maurice Babin (Depardieu), com quem teve um caso décadas atrás.

Potiche: uma grande bobagem cinematográfica

Babin consegue a libertação do marido mediante uma posição favorável de Suzanne em relação às reivindicações. Após um enfarto Robert tem de viajar para descansar e Suzanne toma conta da fábrica, não só afrouxando as rédeas como colocando-a nos eixos, aumentando lucros, etc. O roteiro tinha tudo para ser um daqueles filmes feministas em que a esposa, subjugada por anos, dá a volta por cima e encontra a felicidade, porém o péssimo roteiro não permitiu. O filme é baseado em uma peça escrita por Pierre BarilletJean-Pierre Grédy; dessa forma não posso dizer com certeza se a culpa total deve ser direcionada aos dois ou à François Ozon, que fez a adaptação. Provavelmente um pouco para cada.

Quando digo que o roteiro é ruim, digo isso tomando por base dois aspectos principais: a construção e a história de fato. As passagens de tempo são mal construídas e algumas informações são dadas de forma precária, por exemplo, mesmo depois de apresentar por escrito (e bem colorido) algo como “tantos meses depois” a informação ainda é passada de forma “indireta” por uma das personagens – “nós estamos em 1978″ (o filme é em sua maioria ambientado em 1977). É claro que isso não serve de absolutamente nada para o filme, informação gratuita, mal apresentada e inútil. Hitchcock dizia que a pior maneira de dar ao público um explicação ou uma informação é através de um diálogo, a linguagem cinematográfica é, essencialmente imagética. A história, por sua vez, não chega a lugar nenhum. Existe um discurso já não tão contemporâneo como se pensa de que uma história deve se apresentar como a própria vida, sem grandes conclusões ou lições de moral. Porém, por vezes, o filme que se propõe a isso acaba por não discutir nada e é isso que Potiche faz: Acaba mais ou menos como começou sem ter mudado muita coisa no processo. Os personagens mais esféricos do filme tem suas personalidades muito pouco desenvolvidas – é o caso de Suzanne e dos filhos – o resto é composto por personagens absolutamente planos.

A ambientação nos anos 70 merece seus louvores

Quanto à direção, em nenhum momento houve uma tentativa de ousadia por parte de Ozon, o filme acaba transitando entre o mediano e o medíocre. Os planos usados não nos dizem nada em especial, há alguns splits de tela, mas nada que já não tenha sido feito dezenas de vezes e de formas muito mais interessantes. Há apenas um momento interessante: quando Suzanne vai encontrar Babin pela primeira vez, ele a convida para sentar dizendo “esquerda ou direita”, referindo-se às opções de sofás na sala, mas que funciona como metáfora para a posição de Suzanne frente à greve. Com exceção desse pequeno trecho, nada mais no filme causa interesse; existem até algumas boas gags, mas nada que consiga redimí-lo. Há ainda alguns trechos de flashback que parecem evocar alguma tentativa estilística de Ozon, mas também fracassam. Para não dizer que o filme é um total fiasco, a fotografia é bastante competente, apesar de pouco original, e a direção de arte é o único ponto realmente louvável do longa.

Para não conter spoilers não irei falar nada sobre a sequência final, apenas que ela faz o espectador questionar-se seriamente sobre o valor do ingresso que pagou. Potiche, após ter participado do Festival de São Paulo, chega ao Brasil com quase um ano de atraso, mas eu sugiro que o leitor espere passar no Telecine Cult para assistí-lo.

 

Potiche. Dir.: François Ozon. Com: Catherine DeneuveGérard DepardieuFabrice LuchiniKarin ViardJudith Godrèche

Em Cartaz.

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