X-Men: Primeira Classe (2011)

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Posted 13 June 2011   Cinema, Crítica, Cultura

Stan Lee e Jack Kirby, em 1963, criaram os X-Men como um grupo de super-heróis que já nasceram com seus dons especiais, sem todas aquelas firulas sobre poderes adquiridos por acidentes nucleares ou tempestades cósmicas. Havia a pegada do preconceito contra os mutantes e toda aquela já decantada história sobre a criação dos antagonistas Professor Xavier Magneto, inspirados nos ícones estadunidenses da defesa dos direitos dos negros, Martin Luther King e Malcom X, respectivamente. Mas, em essência, os X-Men eram (e deixaram de ser por algum tempo) um grupo de super-heróis.

E foi com muito prazer que eu pude constatar que em X-Men: Primeira Classe, além da levada de ficção científica conferida nos dois primeiros exemplares da franquia e daquela temática mais séria sobre segmentação social, havia um filme de super-heróis, com as cores e o clima leve que permeava os quadrinhos originais.

X-Men: Primeira Classe é uma aula de bom cinema. E Matthew Vaughan nos mostra que equilíbrio é sempre uma ótima saída para um trabalho bem sucedido.


Um filme equilibrado:

Não consigo encontrar palavra melhor para definir a eficiência desse filme senão “equilíbrio”. De outro modo, como seria possível para o público temer um Sebastian Shaw (Kevin Bacondivertindo-se de montão), vilão megalomaníaco e caricato (as comparações aos vilões bondianos da era Sean Connery não é mera coincidência) num universo que se propõe a ser realista, em que a Crise dos Mísseis Cubanos é ocasionada por forças mutantes (ponto a favor do roteiro que se apóia em fatos reais para alicerçar sua fantasia)?

O esmero da produção em garantir verossimilhança ao filme é louvável. A reconstituição de época e o design de produção do filme são um deslumbre à parte (menção ao visual kitsch da decoração interna do submarino de Sebastian Shaw) e até o linguajar dos personagens é adequado ao momento histórico. Como se não bastasse, a ambientação nos anos 60 autoriza o filme a ser declaradamente colorido e a não esconder a estética dos uniformes heroicos (que só aparecem no ato final do filme, é bom dizer).

O filme todo se equilibra (eficazmente) nessa tênue linha do humor cartunesco (gags visuais como a Rainha Branca buscando gelo para Shaw são ecos do último trabalho de Vaughan, Kick Ass), da ação explosiva (o primeiro ataque de Azazel, preciso e impassível, é excelente) e do drama sincero (tente não se comover com Charles compartilhando a melhor memória de Erik).

A direção merece um elogio à parte. Vaughan tem um tino fantástico para soluções visuais; isso já tinha sido muito bem ilustrado em Stardust. Cenas como o interrogatório de Erik no início do filme, a transformação de Hank (toda com a câmera em primeira pessoa) e a sequência final de ação envolvendo Charles, Erik e Shaw são concebidas de forma inteligente e quase orquestrada. Destaco o uso inteligente pelo diretor da moeda nazista no início e no final do ciclo de Erik, sendo inevitável a correlação com o início e fim do arco de sua transformação no vilão Magneto.

A edição é sempre ágil e a forma como sua direção adquire ritmos diferentes a cada salto do roteiro é, também, louvável. Depois de um grave evento na base da CIA onde estavam alocados os mutantes recrutados por Charles, passa-se para uma sequência bem mais leve e palatável no treinamento dos jovens. Essas mudanças bruscas no roteiro permitem não só criar novas sensações no público a cada sequência, mas também manter sempre elevado o interesse sobre o que acontece em tela, já que não há tempo para você se cansar do que vê.

Apesar de um extenso rol de personagens, de um roteiro ágil que se preocupa em sempre fazer algo acontecer em cena o filme ganha ainda mais força quando mostra sua preocupação em construir um background excelente para seu real protagonista, Erik Lensherr.

Personagens com camadas:

E é no futuro Magneto e na atuação sensacional de Michael Fassbender que está talvez a maior força de X-Men: Primeira Classe. O seu Magneto não é só o Bond com superpoderes que a crítica já falou várias vezes. É um homem que acompanhou e sofreu com os expurgos genéticos perpetrados contra seu povo na Segunda Guerra Mundial. É um homem carregado de ódio e rancor contra alguém que atacou sua família. É um homem movido pela vingança e, como o fatalista que aprendeu a ser, no decorrer da história ainda adquire a convicção de que o mal que uma vez vivenciou está fadado a se repetir contra seu novo povo, os mutantes. Seus atos são estritamente maquiavélicos, pois se justificam pelo seu ideal. E finalmente o espectador consegue, se não aceitar, pelo menos compreender de onde surge todo o ódio que Magneto cultivou contra a humanidade nos primeiros filmes da série.

Para a completa caracterização de Erik, é valioso que haja um contraponto à sua personalidade obcecada por vingança. E, ao entregar seu Charles Xavier, James McAvoy (ótimo, como de costume) surpreende a todos como um jovem inteligente e eloquente, mas também um surpreendente bon vivant, festeiro, que usa perspicácia a favor do sucesso com o sexo oposto. Essa ligeira “irresponsabilidade” de Charles é um oposto interessante ao ‘agente’ meticuloso que é Erik Lensherr. Na verdade, em momento algum nos é mostrado que Xavier sonhava formar uma Escola Para Jovens Superdotados, mas a cadeia de eventos lhe traz maiores responsabilidades e o leva, inexoravelmente, a esse ponto.

A amizade entre Erik e Charles, ainda que pareça repentina (opinião da qual não compartilho, visto que já no primeiro encontro, Charles estabelece um elo telepático com Erik e isso, inevitavelmente, os aproxima), é o catalisador da maior mudança em Lensherr, de jovem vingativo a um defensor da ‘causa’ mutante. Os rumos distintos que cada um tomará em sua vida são bem justificados por suas respectivas histórias pessoais.

Após nos identificarmos com o paternilismo de Charles e com a dor de Erik, é inevitável que o diálogo final entre esses personagens seja doloroso. E dói não pela fatalidade em si, mas por saber o espectador que aqueles homens são amigos, se respeitam e sabem que infelizmente, ainda que busquem o mesmo destino, seus caminhos não serão os mesmos.

 

Aproveitando o que já existia de bom:

Em X-Men: Primeira Classe, há respeito pelo material cinematográfico anterior. O link com os demais episódios da série de filmes (X-Men Origins: Wolverine só conta por ter gerado isso aqui) prova que este filme não é um reboot, mas uma prequência. Vale citar:

1) A cena de abertura é uma refilmagem exata da introdução de X-Men: O Filme, tanto em questão de direção e edição, quanto na fotografia, bem pesada e dessaturada em relação ao restante da fita (o que comprova a fidelidade ao trabalho de Singer) e na trilha sonora reaproveitada de Michael Kamen.

2) A trajetória da Mística (Jennifer Lawrence, fofinha e convincente) em First Class faz correlação perfeita com sua segurança e com seu orgulho mutante nos filmes de 2000 e 2003 e, em especial, justifica de forma primorosa sua frase dirigida a Noturno em X2, quando, ao ser perguntada por que não usa seu poder para se manter igual aos demais humanos, fuzila-o com a resposta: “porque não deveríamos ter que fazer isso”.

3) O Fera apresentado em X-Men: O Confronto Final é um expoente da causa mutante nos EUA, mas também se revela saudoso de sua forma humana quando é irradiado pela aura de “cura” do poder do garoto mutante Sanguessuga. Pois em First Class vemos como Henry McCoy almejava, mais do que tudo, ser igual aos humanos ‘normais’.

4) Há divertidíssimos cameos de personagens já estabelecidos na série (em especial de uma atriz, a certa altura da história, que me fez sorrir como criança na cadeira do cinema).

Os contras na produção ficam por conta de alguns efeitos visuais mal acabados, como o primeiro voo de Banshee e a maquiagem pra lá de malfeita do Fera (a boca nem se mexe direito, meu Deus!), além da atuação mequetrefe de January Jones como a Rainha Branca (já começo imaginar que a frieza – ou frigidez, como bem entender – é da atriz, já que sua personagem em Mad Men é exatamente igual). Mas são pontos que não diminuem a eficiência que é o conjunto de X-Men: Primeira Classe, um filme que tem tudo para agradar o público, não só por ser um ótimo entretenimento, mas sobretudo, pela sua competência como exemplar de um bom cinema.

 

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