BROMANCEs

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Posted 09 June 2011   Cinema, Cultura

Incensado ao posto de gênio da ‘nova’ comédia estadunidense, o diretor Todd Phillips não cometeu, com “Se Beber, Não Case” (The Hangover – 2009), uma obra exatamente nova na história do cinema.

Há um quê de inesperado nas situações enfrentadas pelo trio de protagonistas e a ressaca do título original é um fator de identificação para um público que já teve suas noites de loucura. As piadas têm um conteúdo visualmente inesperado e o filme claramente se dedica a um público mais adulto. Mas de novidade, paramos por aí.

O próprio diretor cita o clássico setentista “Clube dos Cafajestes” (National Lampoon´s Animal House – de John Landis – 1979) como exemplar do cinema que pretende reproduzir. De fato, chega a ser irônico ver como certos veículos da mídia diminuem a segunda parte da saga dos amigos de ressaca ao patamar de “mais do mesmo”.

De fato, todo o trabalho de Phillips é pontuado pela dedicação em extrair comédia das relações havidas num grupo de indivíduos masculinos essencialmente heterossexuais. O que não é exatamente um gênero, mas um dos motes mais frequentes da comédia estadunidense. Seu cinema, portanto, faz parte de um grupo que já gerou outras pérolas da comédia masculina.

O problema é que, nessa mania louca de categorizar tudo, a crítica e o próprio mercado preferem carimbar um filme de alguma forma. No pensamento mercadológico, isso possibilita ao produto encontrar mais facilmente seu público alvo e ao público alvo, encontrar mais facilmente seu filme nas prateleiras das locadoras (ou nas abas dos sites de locação virtual). Se o filme não se adequa exatamente a uma forma pré-estabelecida, inventa-se uma então. Daí a crítica começa a definir gêneros que não são nada mais do que Frankensteins da lógica, como terrirdramédia e o aqui debatido bromance

Sobre esses outros subgêneros, quando convir, falaremos mais. Dentro do assunto, vale lembrar que a definição wikipédica para o termo bromance é “uma expressão em língua inglesa utilizada para designar um relacionamento íntimo, mas não-sexual, entre dois (ou mais) homens, uma forma de intimidade homossocial.”

Avesso aos rótulos, Todd Phillips já se manifestou algumas vezes contra a ideia de tachar seus filmes de “bromance”. Há uma inegável, ainda que em alguns casos não declarada, relação de amizade entre seus protagonistas (vide Dias IncríveisEscola Para Idiotas Starsky & Hutch),mas não é sobre essa forma de amor que o cineasta quer tratar. Certa ocasião, inclusive, cravou que, para ele, como diretor é mais fácil encontrar uma boa origem pra comédia nas relações entre dois ou mais caras por causa do elemento constrangedor que pode sair dessa química.

Realmente, há algo de constrangedor nisso tudo. Porque a amizade masculina, aquela pura, irrestrita e sem conotação sexual, acaba por dar um sentido de grupo entre os homens. É como se uma redoma invisível e protetora se formasse sobre esses indivíduos. Dentro daquele grupo, tudo se pode. Sociologicamente, os indivíduos se substituem pela “grupalidade”, esse bando passa agir num sentido coletivo, sem limitações pessoais e movido estritamente pela excitação emocional. É a típica definição de “turba”, como aquele grupo agitado, de ação intensa, desordenada e breve.

Nesse contexto, situações vexatórias e constrangedoras (como as fotos no final de cadaHangover) são passíveis de acontecer a todo tempo. O cinema de Phillips é de comédia masculina, mas que extrai grande parte de seu humor do elemento constrangedor (próprio do personagem ou da vergonha alheia que sentimos por ele).

Stu e Alan - Se Beber Não Case

Stu e seu dente perdido

Ainda que por motivos diferentes, mas sempre pensando na interação do universo masculino, muitos filmes produziram boa comédia dessa turba.

Porky´s (idem – Bob Clark – 1981) é um excelente exemplar desse ‘gênero’. Abusou da relação de amizade entre adolescentes para produzir um clássico oitentista que baseou sua comédia naquela hormonal busca ao Santo Graal do sexo.  Para a época, cenas que só sugeriam situações sexuais eram extremamente afrontosas à moral e aos bons costumes e, via de regra, matéria-prima para uma boa comédia (a cena do “coiso” é de gargalhar até hoje). A fórmula foi repetida (sem o mesmo impacto) para uma nova geração em American Pie (idem – Paul Weitz, 1999) e suas sequências (ainda menos impactantes).

Fugindo dessa pegada de hormônios na adolescência, comédias que se fincaram na amizade masculina renderam seus grandes exemplares no fim dos anos 70 e início dos 80, com o já citado Clube dos Cafajestes Os Irmãos Cara-de-Pau (The Blues Brothers – 1980), no cinema de John Landis. Almôndegas (Meatballs – Ivan Reitman, 1979), Recrutas da Pesada (Stripes – Ivan Reitman, 1981) fizeram de Bill Murray, na época, um representante desse humor de camaradagem. Recrutas…, inclusive, trouxe Murray, Harold Ramis (o eterno Egon dos Caça-Fantasmas) e John Candy (em curta, mas marcante participação) numa paródia militar repleta de amizade meio distorcida.

Os irmãos cara-de-pau

Já no terreno das amizades declaradas, em que não necessariamente a comédia nasça do constrangimento, mas também das situações inusitadas, provando também ser palatável ao público feminino através da classe de ícones do humor norte-americano. Em Cegos, Surdos e Loucos (See No Evil, Hear No Evil – Arthur Hiller, 1989), por exemplo, é do peculiar humor pastelão de Richard Pryor e Gene Wilder – o melhor Willy Wonka ever – que surge também uma comédia de situações fincada na deficiência física dos personagens principais. Mas é na interação desses personagens, na amizade que surge entre os dois “excluídos sociais” que está a força do filme e, novamente, o que faz o público comprar a proposta.

Às vezes a amizade extrapola a tela e ganha a vida real. Walter Matthau (para aqueles que não se acham na obrigação de conhecer, o Senhor Wilson de Dennis – O Pimentinha) e Jack Lemmon, extraíam da rusga e do mau humor todo o bom humor de seus filmes em conjunto. A amizade da vida real produziu uma relação de competitividade e cumplicidade divertidíssima no cinema. Aliás, o primeiro filme que tenho notícia sobre o tão falado “bromance” veio com essa dupla. Em Um Estranho Casal (The Odd Couple – Gene Sacks, 1968), a amizade masculina é uma comparação direta ao dia-a-dia de um casal comum que resolve morar junto. Posteriormente, em Amigos, Amigos… Negócios à Parte e, em maior intensidade, em Dois Velhos Rabugentos (Grumpy Old Men – Donald Petrie, 1993)  e Dois Velhos Mais Rabugentos (Grumpier Old Men – Howard Deutch, 1995) a dupla provou que não há idade para se viver um verdadeiro “bromance”.

Ao final dos anos 80 e início dos 90, somou-se a esse gênero a pitada do besteirol americano e daí surgiram petardos da minha geração, como Bill & Ted (“nooo waaay!” e “eeeexcelent!!”),Quanto Mais Idiota Melhor (Wayne´s World - Penelope Spheeris, 1992) e Débi & Loyd(Dumb and Dumber – Farrely Brothers, 1994). Todos eles fazem qualquer um rir do absurdo envolvendo duplas de amigos que, além de insanamente estúpidos, precisam da amizade um do outro para seguir em frente em suas sagas pessoais (detalhe: nesse tipo de filme os personagens principais são presumidamente perfeitos em suas imperfeições. Terminam suas histórias da mesma forma como as começam, sem qualquer evolução drástica em suas personas).

bromanceirol

Bromanceirol = anos 90

A partir dos anos 2000, a crítica encontrou na definição do termo bromance, que tem suas raízes fincadas nos fortes vínculos de amizade entre skatistas (vide a já citada definição da wikipédia), uma saída para classificar um subgênero dessa comédia de camaradagem masculina, aquele em que o foco é o amor de amizade masculina.

Para mim, O Virgem de 40 Anos (The 40 Year-Old Virgin – Judd Apatow, 2005) é um exemplar atípico dos anos 2000. Apesar de a trama ter seu eixo de amigos, o foco do filme é no amadurecimento do personagem principal. Porém, não consigo pensar em expressão mais eloquente do “bromance” do que a cena em que Paul Rudd e Seth Rogen, jogando Mortal Kombat Armageddom (ruimzim…), provam como sabem que o outro é gay (naquelas provocações típicas de rodas de amigos).

Filmes como Superbad – É Hoje! (Superbad – Gregg Motolla, 2007) resgatam o clima oitentista de moleques em busca de uma transa para tratar da entrega apaixonada à amizade (fora que ainda gerou ao cinema um dos maiores ícones dos anos 2000: McLovin).

O sensacional Segurando as Pontas (Pineapple Express – David Gordon Green, 2008) aproveita-se da relação de amizade que nasce e cresce rapidamente entre um Seth Rogen maconheiro e seu ‘fornecedor’ (James Franco no verdadeiro maior papel de sua carreira) para contar uma história de ação e aventura, com assassinato, tiros e explosões. Em uma de suas “viagens” com a erva, Rogen e Franco trocam olhares ‘apaixonados’ e juras de amor eterno. Mais uma extensão do ‘gênero’. Vale lembrar que a camaradagem entre maconheiros é referência direta a dois outros grandes amigos da música, TV e cinema, Cheech and Chong – Queimando Tudo (Up in Smoke – Lou Adler, 1978).

Em 2009, com o lançamento de Eu Te Amo, Cara! (I Love You Man - John Hamburg), o termo “bromance” ganhou voz como definição desse subgênero. Nove em cada dez críticas mencionavam o termo como a verdadeira faceta do filme. De fato, a película encarou abertamente a amizade masculina como seu mote principal, entregando um Paul Rudd que nunca teve amigos de verdade e se tornando o vértice de um ‘triângulo amoroso’ peculiar com sua noiva e o novo best man (best friend), vivido por Jason Segel.

Cena de "Eu te amo, cara!"

Eu te amo, cara!

Vale citar que essa não é uma exclusividade do cinema, a cultura pop em geral tem exemplos claros do trato na relação de amizade masculina. Na TV, até o mais desavisado vai se lembrar de ChandlerJoey em Friends trocando palavras de afeto e abraços exaltados. Em House M.D., o médico que todos amam odiar, personagem título da série, vive um verdadeiro bromance com seu melhor (e único) amigo, o oncologista Dr. Wilson. Nos desenhos animados, a amizade masculina é ainda mais presente, com clássicos exemplos como Fred e Barney,Scooby-Doo e Salsicha e Beavis and Butt-Head (que se encaixam perfeitamente na categoria do bromance com besteirol citada lá em cima). Nos quadrinhos, a minha memória imediata me obriga a citar Calvin & Harold, apesar de outros exemplos secundários borbulharem na cabeça, como Asterix e Obelix Wolverine, Noturno Colossus na segunda geração de X-Men ilustrada por Dave Cockrum.

Voltando ao cinema, o fato é que todos esses exemplares, apesar de díspares à primeira vista, guardam entre si a preocupação em externar a amizade, seja de forma romântica ou satírica, mas sempre produzindo comédia daí. Se é um gênero em si, fica a critério do espectador. Só penso que essa classificação de nichos é um exagero à parte e injustificada por várias vezes. Reclassificações, formar gêneros e espécies de cinema acaba por tirar um pouco da singeleza de tudo.  Aposto que algum dia, um maior entendido no assunto vai citar as desventuras dos sargentos Martin Riggs e Roger Murtaugh como os maiores exemplares do cinema de action bromance já feito.

Afinal de contas, Lethal Weapon também é uma turba de homens entre tiros, amizade e gargalhadas.

bromance quadrinhos

Calvin & Haroldo, Asterix e X-men: os bromancers originais

 

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