Crítica Geral e Parcial à Robert Bresson

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Posted 03 June 2011   Cinema, Crítica, Cultura

Robert Bresson

Há algum tempo tenho lido e ouvido falar na importância do cineasta francês Robert Bresson. Os próprios membros da Nouvelle Vague (em especial Jean-Luc Godard e François Truffaut) pareciam tecer grandes louvores a um dos cineastas que, segundo eles, era uma das poucas exceções do que eles chamavam com grande ironia de “cinema de qualidade”. Convém lembrar que junto à Bresson estavam nomes como Jacques Tati e Jean Renoir. Por algum tempo me auto-critiquei por ser tão ignorante em relação à filmografia desse diretor, tendo assistido apenas à “As Damas do Bois de Boulogne” (1945), considerado uma obra menor. De fato, nunca considerei este filme um dos melhores que já assisti. Por alegria do destino encontrei uma oportunidade de comprar um box de filmes do cineasta por um preço bem abaixo da média, eram três filmes: “Pickpocket” (1959), “O Processo de Joana D’Arc” (1262) e “O Dinheiro” (1983): três clássicos.

Em absolutamente todos os textos que li sobre Bresson a descrição que se faz de sua técnica é “um rigor formal”. E o que seria um rigor formal, afinal de contas? Pensei logo nos cinemas de Stanley Kubrick, Andrei Tarkovski e Theo Angelopoulos, muito diferentes entre si, é verdade, mas cada um rigoroso e formal à sua maneira. Acreditei que o que veria seria algo em torno disso; acreditei errado. Assisti aos filmes numa ordem cronológica inversa, começando por “O Dinheiro”. Baseado em um conto de Liev Tolstói, o filme começa quando dois adolescentes de famílias abastadas falsificam uma nota e passam pra frente, desencadeando eventos que terminam com a danação de um – a princípio – inocente trabalhador. O filme do meio, “O Processo de Joana D’Arc”, não é – como o título mesmo explica – a história completa de Joana D’Arc, mas apenas o seu julgamento. Começando quando ela já está presa, o filme se baseia nos autos originais do processo, representando uma das versões mais fiéis do caso. Por último, aquele que poderia ser considerado por alguns como o maior clássico dos três: “Pickpocket”, que baseado em “Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski, narra a perdição de um jovem escritor que começa a bater carteiras como um meio desesperado de subexistência, mas que passa a ser sua atividade primordial. Depois de assistir aos três, esta é minha impressão.

O Dinheiro

O estilo tão particular de Bresson, descrito à exaustão como “rigor formal” se resume na verdade em planos secos e descritivos, acompanhados de uma direção de procura tirar dos atores toda e qualquer plasticidade cênica. Não se trata de uma representação real, engajada com as teorias de Stanislavski ou qualquer coisa assim, longe disso Bresson dirige os atores (que ele chama de “modelos”) de forma a não deixar qualquer resquício dramático ou mimético, o resultado é uma pessoa passando uma determinada informação de forma seca e absolutamente sóbria. Quanto aos planos, como mencionei, são em geral descritivos, se é importante o ato do personagem abrir uma maçaneta a câmera irá mostrar um plano fechado da maçaneta sendo aberta, se é importante o ato do personagem tirar uma carteira do bolso a câmera irá focar a carteira sendo tirada do bolso e assim por diante. Seu tão falado “rigor formal” é um cinema duro.

Pickpocket: um exemplo de close descritivo

O que vemos na tela nesses três filmes (“As Damas de Bois de Boulogne” foi feito antes do cineasta elaborar sua técnica) é uma narração através da descrição de detalhes, da apresentação de informações. Ouso dizer que se Bresson fosse um filósofo estaria localizado historicamente na tradição cartesiana: ele produz um cinema altamente racional e nega ao espectador o princípio da imersão. Aqui faz-se um adendo. Pode-se pensar em filmes que deliberadamente tencionam a não satisfação do espectador, cineastas como Gaspar Noé e Lars Von Trier acabam vindo-nos à mente, mas não nos enganemos, incomodar não só não ignora a imersão do espectador como depende dela para se realizar. Nesse sentido, os filmes de Bresson não incomodam e não agradam. Em minhas considerações sobre cinema, o aspecto que sempre retomo é justamente a imersão como elemento primordial de uma obra cinematográfica. Por que acredito que Hitchcock tenha sido um dos maiores cineastas de todos os tempos? Porque ele sempre dirigia seus filmes considerando o público. E por que Bergman – tão diferente de Hitchcock – também figura entre meus favoritos? Porque, melhor que muitos, Bergman conseguia passar angústia através de imagens, coisa a que Bresson não se propõe. Desta forma, acredito, sou o pior espectador para um filme de Robert Bresson, mas se você, ao contrário de mim, não se importa com um filme descritivo (talvez uma razão pela qual tenho problemas em assistir a maioria dos documentários), Bresson é mesmo um prato feito.

O Processo de Joana D'Arc: o menos descritivo dos filmes mencionados.

É claro que este texto é parcial em ambos os sentidos: pessoal e “matematicamente”, já que estou ignorando aqui outros filmes do diretor, em especial “Um Condenado à Morte Escapou” e “Diário de um Pároco de Aldeia“, outros clássicos. Não melhorei tanto assim minha ignorância em relação à filmografia de Bresson (há ainda cerca de 10 filmes do cineasta), mas pretendo assistí-los num futuro próximo, afinal é sempre bom deixar espaço em nosso ego para uma mudança de opinião.

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