O que você faz, cineasta?
Quando eu e o Freddy Leal iniciamos essa conversa sobre a condição e o futuro do cineasta no Brasil, partimos de uma frase que ele mesmo falou em sua conta do twitter:
Daí são várias questões levantadas, algumas já estão no texto E Agora Cineasta? e outras serão brevemente discutidas aqui.
Como o Freddy, eu não tenho uma formação direta em audiovisual. Meu curso de graduação foi em Design Gráfico, onde ali eu pude trabalhar com vídeo em trabalhos voltados para o motion design ou para o estudo da linguagem cinematográfica. Desde 2008 eu trabalho com vídeo, o tenebroso inimigo da frase acima. Mesmo assim, me especializei em Cinema e Vídeo na pós-graduação.
Talvez essa minha formação “multidisciplinar” tenho me ajudado a observar o ambiente do cineasta de uma forma diferente, ainda mais quando via alguns colegas de formação em cinema passando por problemas ou situações que para mim não era tão diferentes das que enfrentei no mercado gráfico. Foi daí que tentei demonstrar para o Freddy que nem tudo estava perdido, que talvez existam soluções para os perenes do cineasta moderno.
Os tópicos a seguir não tem lá um caráter “dogmático” ou definitivo. São mais pontos que têm sido constantemente levantados em discussões entre amigos pelos últimos meses:
1. Sobre crowdfunding / crowdsourcing
Estamos passando por uma bela mudança no que diz respeito a busca de financiamentos para projetos. O grande mote da vez é o crowdfunding, que é literalmente o financiamento em grupo. O modelo é bem conhecido nos EUA, vindo de plataformas como o Kickstarter, que provavelmente já financiou o projeto de sua banda favorita. Você pode acessar o site, checar sua cartela de projetos, se informar do quanto é necessário para completar o orçamento visado e investe o quanto consegue para ajudar. O retorno? Além de ver o projeto sair do papel, alguns oferecem certos “bônus” como material exclusivo, entre outros.
Só que os brasileiros estavam, digamos, impedidos de utilizar esta plataforma pois era necessára uma conta bancária aberta nos EUA para o sistema funcionar. Agora nós podemos desfrutar de um sistema parecido, graças ao Catarse. Funcionando desde o começo do ano, esta plataforma nacional tem rapidamente rodado mais e mais projetos de boa aceitação entre o público e agora já demonstra uma abertura para projetos audiovisuais. Pode ainda não ser o caminho para se financiar um projeto de longa metragem, mas já é uma boa opção para tentar a sorte com o seu projeto de curta-metragem ou até de um documentário.
O crowdsourcing já envolve utilizar o coletivo espalhado pela internet para ajuda em um objetivo em comum.
Por exemplo: ano passado eu mesmo ajudei na pós-produção de um videoclipe de um diretor Irlandês que foi originalmente rodado nos EUA, sendo que apenas mantive contato com a equipe via e-mails e twitter. Não houve retorno financeiro, porém todos partiram da ideia que estavam ajudando em um projeto que acreditavam ter potencial. O resultado final foi bom tanto para o artista quanto para eu, já que consegui um trabalho inédito para o meu portfólio.
Agora, como rodar mais projetos dessa maneira?
Existem diversas opções e acredito que isto parta de pré-produção de seu projeto. Você pode seguir o exemplo do Kevin Macdonald, que com apoio dos usuários do youtube, criou o grande e complexo mural que é o seu documentário Life in a Day. Ou talvez juntar mais de 54 diretores ao redor do mundo para fazer um remake do Footloose, como foi feito no engraçado Our Footloose Remake. As ideias são infinitas e existe uma grande rede mundial ao seu dispor para embarcar em seu projeto dos sonhos.
2. Como distribuir ?
Acredito que um dos maiores temores para um cineasta é o de finalizar um projeto e não ter como distribuí-lo. Festivais são burocráticos, competições mais ainda. Não obstante, existe aquele temor generalizado que não se pode publicar o seu curta-metragem na internet sem antes ter conseguido divulgá-lo em algum lugar. Existem opiniões divergentes quanto a isso e a minha é que, a princípio, faça o upload do seu material.
Conhecemos casos de profissionais que não tem um projeto online por neuroses deste tipo. Caso já se tenham esgotado suas possibilidades de divulgação em um ano de projeto finalizado, coloque-o no ar, divulgando-o por entre suas redes sociais. Ponha tags coerentes e jogue-o em grupos e fóruns decentes. Alguém, em algum lugar, vai se interessar.
Aliás, como você pode saber se da noite pro dia seu curta não se transformará em um viral famoso?
OK, então sua ideia não é essa. Assistir qualquer material pela internet é chato. Você pode então fazer como o cineasta francês Vincent Moon. Com um documentário finalizado com o Efterklang, eles decidiram criar um site que proporcionasse uma estrutura para os fãs promoverem “sessões gratuitas” para cinco ou mais pessoas. Isso quer dizer que você podia se inscrever, demonstrar a sua ideia e o local onde gostaria de passar o filme e uma semana antes receberia o arquivo em alta resolução para baixar. A única exigência era a de enviar uma foto do seu “público” em sua sessão, mais como forma de registro no mural do projeto.
O resultado? An Island foi apresentado em mais de 1200 sessões independentes ao redor do mundo. Quantas sessões oficiais existiram? Aproximadamente 80.
3. Faça seu portfólio e responda o bendito e-mail
Retomando o caso do conhecido que não tinha material online, é sempre bom lembrar o quanto as coisas rodam com rapidez na rede. Nunca se sabe quando alguém vai precisar de uma pessoa com o seu perfil em um job para ontem. Portanto, levante todo o material que você e faça algum reel. Se for escritor e roteirista, faça um clipping. Encontre ferramentas para disponibilizá-los, abrindo uma conta no vimeo, um perfil no behance ou no cargo collective.
Se você ainda não tem material para um portfólio, invista em projetos pessoais. Faça aquele institucional para o seu amigo ou junte uma turma para fazer o curta-metragem que tanto enrolaram para filmar. Pode parecer fácil falar assim, mas é a melhor forma de praticar a sua especialidade e ainda juntar material no seu currículo.
Mais importante: tente ser acessível. Responda o bendito e-mail. Por mais que as diárias sejam puxadas ou complicadas, tente dar satisfação àquela chamada perdida. Se você se acha melhor que isso, contrate um assessor e não me encha o saco. Quanto mais contatos você fizer nessa vida, melhor para você e seus projetos. Lembre-se: nenhum homem é uma ilha.
No fim das contas…
As palavras do Freddy não estavam erradas. Vídeo pode sim estragar o cineasta. Mas cada profissional tira proveito de suas experiências da forma que bem entende. Em um mercado que diz fazer “cinema publicitário”, trabalhar com certos projetos de vídeo talvez seja o menor dos problemas.
Acho que em essência, o cineasta (ou proto-cineasta) deve procurar formas para manter o seu espírito intacto.
Está para vir o “How To Be A Filmmaker Without Losing Your Soul”.














Li o que precisava ler. Muito Obrigado.
Muito pertinente o artigo. Também sou designer e tenho meu foco em vídeo. Estou fazendo um TCC sobre o Gerenciamento de Projetos na Produção Cinematográfica. Considero que a indústria cinematográfica brasileira tem dificuldade de ser sustentável por diversos fatores, porém aponto como crítico o problema do multipólio das grandes distribuidoras com seus contratos de arrendamento de salas de exibição. Ainda aponto como problemático a falta de maturidade do setor. É um risco muito grande se investir em cinema, não se tem estatísticas, não se tem controle de produtividade, não se tem estabilidade. Tem muito o que se evoluir nesse mercado. O legal é ver que a cadeia produtiva do cinema tem se ampliado com alternativas de financiamento, como as que você citou, e com a ampliação dos suportes de exibição. Não acho que o cineasta esteja mais cerceado, pelo contrário, considero que ele tem mais oportunidade do que nunca, porém ele deve ampliar sua visão e agregar a função de empreendedor.
Em tempo: http://www.brainstorm9.com.br/entretenimento/distress-do-outro-lado-da-pelicula/