E agora cineasta?

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Posted 16 April 2011   Cinema, Cultura

[N.E.: Texto propositalmente interessante,denso, grande e sem imagens. Leia até o final, entenda o porquê e opine]
Eu não sou cineasta… ou pelo menos eu não tenho formação acadêmica de cineasta. Sou um artista plástico (ou “artista visual” se seguirmos meu diploma à risca) que descobriu na faculdade a paixão pelo cinema e decidiu, dessa forma, seguir por esse meio. Após poucos anos de muita observação e alguma experiência percebi certa tendência no mercado brasileiro que se não é de se assustar é de se preocupar. Trocando tweets com Jairo Neto decidimos trazer este assunto até o GeeX! e debatê-lo com você leitor.

Pois bem, aos que não sabem, não tinham nascido ainda ou simplesmente eram muito crianças e não se lembram (eu mesmo tinha entre 4 e 5 anos durante o impeachment e lembro vagamente) o governo Collor foi o pior desde a redemocratização do Brasil (para dizer o mínimo), além de literalmente roubar os cidadãos brasileiros, em 1990 através do PDN (Programa de Desestatização Nacional) extinguiu a Embrafilme, uma empresa nascida em 1969 cujo objetivo era incentivar a produção cinematográfica nacional. Dessa forma o cinema nacional que já vinha mal das pernas (muito graças à ditadura militar) acabou sendo esfaqueado pelas costas. Em 1995 um filme deu início ao que se chama comumente de “Retomada”: “Carlota Joaquina – Princesa do Brazil”, de Carla Camurati. Produzido pela “Elimar Produções Artísticas”, o filme ganhou certa notoriedade internacional. O começo desse período, porém não recebeu incentivo governamental e apenas em 2001, no mandato de Fernando Henrique Cardoso, foi criada a Ancine (Agência Nacional do Cinema), cujos objetivos são, basicamente, os mesmos da finada Embrafilme. Desde então a nova agência de fomento tem tido uma papel fundamental no desenvolvimento do cinema brasileiro, não há como medir sua importância. Mas tudo tem dois lados.

Há pelo menos três pontos negativos nas atuais políticas da Ancine: em primeiro lugar, a agência mantém um certo tipo de “pontuação financeira”. Um cineasta que entre com um roteiro para receber incentivo deve apresentar um currículo/portifólio com filmes que já fez ligados à Ancine. Por exemplo, se eu faço um filme, mesmo que tenha custado dez reais e que tenha saído do meu próprio bolso, para ser reconhecido eu devo tirar um Certificado de Produto Brasileiro (CPB) vinculando-o ao órgão, assim quando a Ancine pesquisa meu nome ela verá todos os filmes que eu vinculei a ela. Há uma tabela de quanto o cineasta pode pedir de incentivo em relação ao volume de sua produção registrada. Se ele tem um ou dois curtas-metragens registrados ele está apto a um incentivo de R$1 milhão, três ou quatro, R$2 milhões, e assim por diante. Por melhor que possa parecer isso gera um pensamento de que apenas cineastas experientes podem se arriscar em produções maiores (ah se dissessem isso à Orson Welles!). Hoje é difícil um cineasta dirigir um longa-metragem antes dos trinta anos, parece que esperam ele perder toda sua criatividade e todo seu espírito anárquico para poderem financiá-lo. A pseudo-indústria brasileira nunca prosperará e se solidificará sem experimentações anárquicas de linguagem de jovens irresponsáveis (pensou em Jean-Luc Godard, Glauber Rocha, Youssef Chahine ou Sérgio Bianchi?).

O segundo ponto é que nosso hipotético cineasta em certa parte do processo deverá entregar uma proposta de linguagem. Ora, por que a Ancine precisa saber da linguagem? Por mais que não haja interferência ou censura, é uma questão de postura. Um cineasta (como todo artista) não deveria ter que dar satisfações de sua linguagem pessoal àqueles que o financiam, devemos respeitar sua liberdade criativa. Não acredito que haja aí uma intenção do governo de limar filmes que consideraria “perigosos” (mesmo porque muitos foram feitos desde 2001), mas há sem dúvida um grande medo de se “jogar dinheiro fora”.

O terceiro ponto é, sem dúvida, o que considero mais gritante. Aos que estão lendo o texto e não sabem como o incentivo da Ancine funciona (nem foram buscar em uma wikipedia da vida) eu explico: um filme após receber o aval do órgão (imaginemos de R$1 milhão), começa a capitar recursos, correr atrás de empresas que deem dinheiro (somando, no nosso caso, um total de R$1 milhão). Essas empresas, por esse incentivo terão gordos débitos em sua carga tributária. Quando a agência foi formada essa solução simples foi incrível, isso ajudava os filmes a terem patrocinadores que efetivamente ganhavam algo em troca. Porém, como eu disse, tudo tem dois lados. Isso engessou a produção cinematográfica em certa medida: dificilmente uma empresa irá dar dinheiro para um filme sem ter o desconto no imposto, ou seja, só filmes contemplados pela Ancine (ou por outros programas e editais) são diretamente viáveis, mas a Ancine não da conta de contemplar todos os projetos que poderia contemplar. Hoje é muito difícil produzir um filme apenas com a iniciativa privada.

Ok. Aqui estou eu, acabei de me formar numa caríssima escola de cinema e quero ganhar a vida fazendo filmes. Tenho curtas suficientes para conseguir 1 ou 2 milhões e tenho tudo para ser contemplado pela Ancine, vou lançar meu filme mês que vem, certo? Errado. Um filme demora anos para ser pré-produzido, produzido e finalizado. Conheço alguém que fez figuração no filme “Vips” (que está nos cinemas), essa pessoa fez figuração há 3 anos. Não que todos os filmes demorem tanto (na verdade costumam demorar menos que isso), mas é pouco viável um cineasta começar a carreira como cineasta de fato e se sustentar pelo resto da vida como cineasta.
Newton Cannito (doutor em cinema pela USP, roteirista e secretário do Audiovisual) disse certa vez que “demora tanto pra fazer um filme no Brasil que quando você consegue perde a vontade de fazê-lo”.

O que nos sobra? O mercado de vídeo. E o vídeo estraga o cineasta. Desculpem-me os mais sensíveis, mas o processo de imbecilização do público é algo gritante. A cultura geral do vídeo (e nisso entram comerciais, videoclipes, programas de web, televisão, institucionais, etc) é de mastigar a informação ao espectador, nada pode ficar dúbio, nada pode ficar em suspenso, a cultura digital prega que tudo é efêmero e nada deve ser levado a nada. Assista um vídeo agora e passe para outro em seguida, o anterior não é importante. Quanto mais as produções videográficas são “imbecilizantes”, mais o público fica lobotomizado e isso gera uma bola de neve.

O futuro pertence a uma população engajada em novas tecnologias e na velocidade de comunicação, mas incapaz de discernir a informação que consome. Mesmo nossos famosos cineastas fizeram ou ainda praticam vídeo: Fernando Meirelles, Heitor Dhalia, etc. Coincidência a USP ter mudado sua graduação em Cinema para Audiovisual? Não. Parte dessa crescente imbecilização é culpa, desculpem-me mais uma vez, do público. Quando eu digo “parte” é porque não é sensato colocar toda a responsabilidade em cima do público, já que antes de mais nada quem produz esses vídeos subestimando a capacidade das pessoas (as produtoras) também são diretamente culpadas. Mas por que elas subestimam o público para começo de conversa? Elas o fazem porque o próprio público se subestima, talvez por preguiça, talvez por baixa auto-estima. Sejamos honestos, não gostamos de ser instigados, não gostamos de ter de procurar pela informação. A sociedade contemporânea é marcada por um grande fluxo de informações, a internet veicula milhões de dados por segundo, tudo está ao nosso alcance, com isso parece-nos implicitamente absurdo ter de fazer certo esforço para conseguir alguma coisa, nos tornamos covardes.

E quem pode julgar as produtoras por fazerem isso se são seus clientes que assim exigem? E quem pode julgar esses clientes se essa é sua demanda de espectadores? Como eu disse, é uma bola de neve e nossos cineastas estão presos a ela. O cineasta que tem de se manter no mercado de vídeo para pagar as contas acaba contaminado por essa linguagem, não é difícil ver um filme que use uma linguagem extremamente redundante, seja por coisas simples como um diálogo que a câmera “chuta” de um personagem para o outro de acordo com suas falas para dar absoluta certeza ao espectador de que aquela pessoa é que está falando, seja pelo grande número de closes sem sentido (estamos pensando em projeção em tela de cinema, não na televisão), seja por planos ou diálogos que servem exclusivamente para explicar certa informação ao espectador.

Dei aula de desenho por quase três anos sendo que a grande maioria dos meus alunos tinha entre nove e dezesseis anos. Nesses anos pude observar algumas características dessa geração. Em primeiro lugar é uma geração que não lê, não que a minha (com alguns anos de folga para mais e para menos) fosse uma geração literata, mas perto desta (e arrisco-me a dizer das próximas) éramos leitores assíduos. Vejo pré-adolescentes, e até mesmo adolescentes de fato, que nunca se interessaram por um livro, no máximo leram o que a escola exigiu. Mas por que isso? Porque esse grande fluxo midiático contemporâneo os acostumou com a informação aqui e agora. Por que eu leria 300 páginas pra saber o final de uma história se eu posso só assistir o filme (ignorando o fato de que uma coisa não exclui a outra)?

Digo tudo isso para tentar explicar ou pelo menos construir um panorama geral de nosso público atual: pouca informação passada sem margem para dúvidas, afinal tempo é dinheiro e não queremos perder as discussões sobre o Big Brother no MSN, no Twitter e no Facebook. Quem poderia dar o primeiro passo para isso terminar? O cineasta? Ele precisa trabalhar – o que na maioria das vezes infelizmente significa seguir o mercado. Os clientes das produtoras? Talvez, mas eles perderiam seu apelo com o público, peça vital para sobreviverem. O público? Creio que sim, e quando digo “o público”, não falo de uma entidade mística jakobiana (ou jakobsoniana), falo de você leitor, de mim, de todos. Você já começou lendo um post imenso desses, agora continue lendo um livro… grosso e sem desenhos, de preferência. E caso esteja se perguntando, sim, a falta de imagens nesse artigo é proposital.

A Retomada já acabou, os resultados foram magníficos, mas precisamos de mais. Precisamos de uma reforma na Ancine, precisamos de políticas que permitam nossos cineastas fazerem cinema e precisamos nos reeducar para não sermos essa esponja com alzheimer que somos hoje em dia… seria pedir muito?

1 Comment

  1. Parabéns, exelente texto!!!!
    O que voce aqui descreve é a verdade crua e pura, concordo com vc plenamente.
    Sou estudante de cinema tambem, eu e a minha turma ja haviamos reparado nisso.
    Primeiramente, os filmes de antigamentes são muito melhores(pelo menos para mim), mesmo com uma qualidade muito baixa e com poucos recursos. Eram quem mais se preocupavam com a qualidade de imagem(referente aos recursos existentes na epoca),com o texto como forma argumentativa, afim de realmente contar uma estoria e de fazer as pessoas refletirem.
    Sengundo, a industria cinematrografica esta tão ruim que se vc for analizar os filmes a maioria deles são sobre filmes ja realizados, mais com uma reeleitura voltada para os efeitos especiais(como Tron ou como Alice no Pais das Maravilhas), ou senão, filmes feitos baseados em estorias em quadrinhos(como Transformers, Homem Aranha, O Lanterna Verde, que ja teriam um retorno ja esperado), ou então filmes relacionados a violencia, sexo, drogas e cliches(como um “filme de comedia” contemporaneo”).
    Então o futuro do cinema esta realmente esta comprometido, e acho que isso dificilmente vai mudar.
    Ja me deparei com pessoas que consideram filmes como o Cidadão Kane ruim ou pessimos, e falam que filmes como o X-Men, o ultimo que saiu não me recordo do nome, foi perfeito!!!
    E ainda, amigos que vão para o cinema somente para ver os efeitos especias. E ja tive numa situação aonde a mesma pessoa me falou que não se importava nem um pouco com o roteiro. Ja em outras vezes mais agora com uma amiga, admitiu para mim que ia assistir filmes para ver os “galas”, e quando saiamos da sessão, eu-lhe perguntava, como havia sido o filme e ela falava, que o “galas” estavam lindo, os musculos deles estavam definidos, e coisas do tipo.
    Eu concordo com uma fraze do Bazin, que fala que não ha so um caminho para o cinema, ele se encerra em si em todos os caminhos. Mais as pessoas vão para o cinema para ver tudo menos filme. Vão para ver o gala, ou senão o efeito especial, ou ter um lugar no escuro para ficar com a namorada, ou para se encontram pessoas so sexo diferente para poderem ficar.
    Ninguem mais vai para o cinema para ver filme, como uma obra de arte que ela é.

    Posted by william augusto on 29 June 11 at 3:28pm [Reply]

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