Restrepo (2010)
Restrepo inicia-se com uma imagem não exatamente esperada para um documentário de guerra. Em baixíssima qualidade (provavelmente de uma câmera de celular) vemos quatro adolescentes em um trem. Alguns dividem fones de ouvido, e, aparentemente embriagados, exaltam a amizade entre eles, por fim relembrando que estão partindo para cumprir uma temporada militar no Afeganistão.
Corta-se então para uma cena de um comboio manobrando pelo Vale Korengal. Após atravessarem uma vila, eles são duramente atacados por inimigos que se escondem nas montanhas. A câmera mexe-se freneticamente, fugindo das balas e explosões, até que o áudio da gravação falha e apenas testemunhamos o pânico dos soldados que protegem-se atrás da carcaça do jipe.
Apontado pela CNN como “um dos locais perigosos do mundo”, o Vale Korengal era oficialmente uma zona de guerra enclausurada em uma região de difícil acesso. Não só isso, era um pesadelo vivo para qualquer soldado americano. Como explicado por testemunhos dos próprios soldados, ir para aquele lugar era como ser enviado para a morte. Portanto, uma vez ali, os soldados formavam um núcleo de camaradagem, de confiança mútua, enquanto engajavam-se em batalhas seguidas pelos quinze meses de duração da temporada. E é nesse cenário que eles constroem o posto Restrepo, em homenagem a um colega, onde planejam manter a linha de batalha mais adentro ao território inimigo.
O trabalho de Tim Hetherington e Sebastian Junger não dá ao espectador muitas informações das razões estratégicas ou políticas da campanha militar, apesar que para muitos a razão é meio óbvia. Na verdade, eles parecem abstrair este ponto político e transformam aquilo em um pano de fundo caótico para onde aqueles homens são arremessados. Os soldados do Talibã quase nunca surgem, movendo-se como fantasmas por entre as árvores e as rochas do vale. Essa tensão cresce e domina os soldados do pelotão, que vivem em um estado de pânico e medo, aguardando a próxima bala que surgirá para derrubar um colega.
Restrepo no fim das contas não é apenas mais um documentário de guerra. Ele é um estudo aberto dos valores da amizade. Afinal, aquela cena de abertura demonstra o fundamento principal da obra: a base de Restrepo foi montada em uma homenagem a um colega.
E não há condição política ou étnica que desafie os pilares de uma amizade verdadeira.
Restrepo – Direção: Tim Hetherington e Sebastian Junger
Entrou em cartaz no último dia 11 de Março.











Leave a Reply