A Minha Versão do Amor (2010)

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Posted 07 March 2011   Cinema, Crítica, Cultura

Antes de tudo, “A Minha Versão do Amor” é mais um dos incontáveis casos em que a tradução do título parece ter sido feita por alguém que não assistiu ao filme, deu uma rápida olhada numa sinopse e fez sua “tradução” sobre o que achou que entendeu. Ou isso ou um caso crônico de falta de talento. Tudo isso porque Barney’s Version (sim, esse é o nome real do filme) não é nem de longe uma comédia romântica como pode sugerir o título em português.

a 1ª sra. Panofsky

Baseado no livro homônimo de Mordecai Richler (que no Brasil foi traduzido de forma brilhante como “A Versão de Barney”) o filme conta, ou melhor, é contado sob o ponto de vista de Barney Panofsky (Paul Giamatti), um produtor de tevê canadense aparentemente sempre alcoolizado que não perde oportunidades de fazer tiradas ácidas com as pessoas a sua volta. A força que puxa o filme inicialmente é o lançamento de um livro pelo seu desafeto, o detetive O’Hearne (embora no livro seja um ex-amigo de longa data, Terry McIver, no filme o personagem foi reduzido e trocado por um policial boçal). O’Hearne (Mark Addy) escreve uma autobiografia onde conta que Barney teria, muitos anos atrás, assassinado seu amigo Boogie (Scott Speedman); este é o estopim que origina uma série de flashbacks, guiando-nos através da vida de Panofsky, da Roma boêmia dos anos 70 à enfadonha Montreal dos anos 2000. Algo central na trama é o número de casamentos do personagem: três (provavelmente por isso nosso querido tradutor pensou nesse título tão infeliz). Mas não se engane: a tal “versão” de Barney não é sobre o amor, é sobre sua própria vida.

a 2ª sra. Panofsky

Depois de três casamentos que acabaram de formas diversas (suicídio, um adultério cômico e um rompimento trágico), alguns amigos mortos (incluindo o próprio pai) e o início do mal de Alzheimer (não se preocupe, tudo isso é mostrado logo no começo do filme); percebemos que Barney é vítima dos olhares e julgamentos de todos a sua volta: ele sempre estraga tudo e agora é um velho infeliz. Como eu disse, a “versão” de Barney não é sobre o amor, mas uma defesa em relação a tantos julgamentos, o filme é seu testemunho sobre o que ocorrera em sua vida.

Se a sinopse do livro diz que talvez não possamos acreditar em tudo o que Panofsky afirma, é importante notarmos que o personagem assume pelo menos um erro crucial pelo qual, inclusive, não pode deixar de se culpar: foi por sua causa que seu terceiro casamento (o único realmente feliz e duradouro) terminou.

“A Minha Versão do Amor” é, assim como o livro que o originou, vendido como uma comédia ácida que supostamente lembra em muito Woody Allen, mas discordo bastante disso. A não ser pelo fato de Panofsky ser judeu o humor da obra não se relaciona tanto assim com o do cineasta. Enquanto Allen tem um humor mais referencial e de certa forma menos sutil, este filme aposta numa “dramédia” com boas tiradas de roteiro

a 3ª sra. Panofsky

(provavelmente herdadas do livro). Ainda sobre isso, tenho dificuldades de enxergar qualquer filme sobre dramas humanos como comédia, além disso, se o filme se mostra leve e descontraído em sua maioria (a parte mais cômica e talvez mais próxima à Allen é sem dúvida a da enfadonha segunda sra. Panofsky) é em sua última parte onde o personagem já divorciado de sua amada terceira esposa sofre o drama do Alzheimer que o filme toma um rumo um pouco diferente: um tragédia. Sob a definição clássica de tragédia, um personagem passa de um estado desafortunado para um mais bem colocado e logo após é castigado de forma mais severa que o necessário por algum pecado que cometera; é exatamente o que parece acontecer com Panofsky. Por pior que tenham sido seus atos, eles não justificam a angústia de uma pessoa frente a uma doença como o Alzheimer.

De todo modo, “A Minha Versão do Amor” não é um grande filme, nem será lembrado como uma grande adaptação para o cinema, mas sua última parte (e talvez a enfadonha segunda sra. Panofsky) vale as duas horas investidas no filme. Destaque para Dustin Hoffman (fazendo o pai de Barney), sempre competente e Paul Giamatti que está excepcional no personagem principal.

Minha Versão do Amor (Barney’s Version) – Direção: Richard J. Lewis, com: Paul Giamatti, Dustin Hoffman, Rosamund Pike, Scott Speedman e Minnie Driver

Estreou dia 04 de março de 2011

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