A Minha Versão do Amor (2010)
Antes de tudo, “A Minha Versão do Amor” é mais um dos incontáveis casos em que a tradução do título parece ter sido feita por alguém que não assistiu ao filme, deu uma rápida olhada numa sinopse e fez sua “tradução” sobre o que achou que entendeu. Ou isso ou um caso crônico de falta de talento. Tudo isso porque Barney’s Version (sim, esse é o nome real do filme) não é nem de longe uma comédia romântica como pode sugerir o título em português.
Baseado no livro homônimo de Mordecai Richler (que no Brasil foi traduzido de forma brilhante como “A Versão de Barney”) o filme conta, ou melhor, é contado sob o ponto de vista de Barney Panofsky (Paul Giamatti), um produtor de tevê canadense aparentemente sempre alcoolizado que não perde oportunidades de fazer tiradas ácidas com as pessoas a sua volta. A força que puxa o filme inicialmente é o lançamento de um livro pelo seu desafeto, o detetive O’Hearne (embora no livro seja um ex-amigo de longa data, Terry McIver, no filme o personagem foi reduzido e trocado por um policial boçal). O’Hearne (Mark Addy) escreve uma autobiografia onde conta que Barney teria, muitos anos atrás, assassinado seu amigo Boogie (Scott Speedman); este é o estopim que origina uma série de flashbacks, guiando-nos através da vida de Panofsky, da Roma boêmia dos anos 70 à enfadonha Montreal dos anos 2000. Algo central na trama é o número de casamentos do personagem: três (provavelmente por isso nosso querido tradutor pensou nesse título tão infeliz). Mas não se engane: a tal “versão” de Barney não é sobre o amor, é sobre sua própria vida.
Depois de três casamentos que acabaram de formas diversas (suicídio, um adultério cômico e um rompimento trágico), alguns amigos mortos (incluindo o próprio pai) e o início do mal de Alzheimer (não se preocupe, tudo isso é mostrado logo no começo do filme); percebemos que Barney é vítima dos olhares e julgamentos de todos a sua volta: ele sempre estraga tudo e agora é um velho infeliz. Como eu disse, a “versão” de Barney não é sobre o amor, mas uma defesa em relação a tantos julgamentos, o filme é seu testemunho sobre o que ocorrera em sua vida.
Se a sinopse do livro diz que talvez não possamos acreditar em tudo o que Panofsky afirma, é importante notarmos que o personagem assume pelo menos um erro crucial pelo qual, inclusive, não pode deixar de se culpar: foi por sua causa que seu terceiro casamento (o único realmente feliz e duradouro) terminou.
“A Minha Versão do Amor” é, assim como o livro que o originou, vendido como uma comédia ácida que supostamente lembra em muito Woody Allen, mas discordo bastante disso. A não ser pelo fato de Panofsky ser judeu o humor da obra não se relaciona tanto assim com o do cineasta. Enquanto Allen tem um humor mais referencial e de certa forma menos sutil, este filme aposta numa “dramédia” com boas tiradas de roteiro
(provavelmente herdadas do livro). Ainda sobre isso, tenho dificuldades de enxergar qualquer filme sobre dramas humanos como comédia, além disso, se o filme se mostra leve e descontraído em sua maioria (a parte mais cômica e talvez mais próxima à Allen é sem dúvida a da enfadonha segunda sra. Panofsky) é em sua última parte onde o personagem já divorciado de sua amada terceira esposa sofre o drama do Alzheimer que o filme toma um rumo um pouco diferente: um tragédia. Sob a definição clássica de tragédia, um personagem passa de um estado desafortunado para um mais bem colocado e logo após é castigado de forma mais severa que o necessário por algum pecado que cometera; é exatamente o que parece acontecer com Panofsky. Por pior que tenham sido seus atos, eles não justificam a angústia de uma pessoa frente a uma doença como o Alzheimer.
De todo modo, “A Minha Versão do Amor” não é um grande filme, nem será lembrado como uma grande adaptação para o cinema, mas sua última parte (e talvez a enfadonha segunda sra. Panofsky) vale as duas horas investidas no filme. Destaque para Dustin Hoffman (fazendo o pai de Barney), sempre competente e Paul Giamatti que está excepcional no personagem principal.
Minha Versão do Amor (Barney’s Version) – Direção: Richard J. Lewis, com: Paul Giamatti, Dustin Hoffman, Rosamund Pike, Scott Speedman e Minnie Driver
Estreou dia 04 de março de 2011













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