O Concerto (2009)

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Posted 21 December 2010   Cinema, Crítica, Cultura

Bem, minutos depois de assistir a este filme, percebi que comecei a escrever aqui no GeeX! há mais ou menos um ano, desde então não escrevi críticas muito severas para nenhum filme (falei bastante mal de “Plano B”, é verdade, mas longe de considerar aquilo como uma “crítica severa”). Após uma breve análise sobre os filmes que fui ver no cinema em 2010, percebo que esse foi um ano muito bom, tivemos um número bastante considerável de produções de qualidade que beiram ao inquestionável, somado ao fato de que, provavelmente por sorte, isentei-me de ver a maioria das “bombas” que foram lançadas. Digo isso, pois “O Concerto“, filme do ano passado que só chega ao Brasil agora, em minha opinião é mais um ótimo exemplo de como 2010 foi um grande ano para os cinéfilos de plantão.

a orquestra saindo do Rússia

O filme de Radu Mihaileanu conta a história de Andreï Filipov (Alekseï Guskov), considerado por muitos um gênio da música e maior especialista em Tchaikovsky, era maestro da orquestra do Bolshoi, mas por defender os músicos judeus durante a ditadura pseudo-comunista acabou sendo humilhado em público, despedido e, trinta anos depois, condenado a ser um simples faxineiro do Bolshoi enquanto um boçal o dirige e um incompetente rege uma orquestra decadente. Sua sorte muda quando, limpando a sala do diretor, intercepta um fax do Teatro Chatelet convidando o Bolshoi para uma apresentação em Paris para substituir o Filarmônica de Los Angeles que havia cancelado. Andreï resolve reunir sua antiga orquestra (com alguns novos adendos, já que alguns se recusam e outros já morreram), hoje composta de velhos decadentes, e se apresentar em Paris passando-se pelo Bolshoi. Se não bastasse, eles obrigam Ivan Gavrilov (Valeriy Barinov) a agencia-los, o mesmo homem que 30 anos antes havia humilhado Andreï e sua orquestra, impedindo-os de concluir o Concerto de Violino em Ré Maior, de Tchaikovsky. E é esse mesmo concerto que Filipov se propõe a apresentar, pedindo ao Chatelet como solista Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurent).

Anne-Marie aprendendo que técnica não é tudo.

O Concerto parte de uma proposta bastante simples: um falso Bolshoi se apresentando em Paris. Contudo, ele consegue muito mais que isso; mais que um grupo de impostores, Filipov e sua orquestra acabam representando um grupo de “redentores”, não só em relação à música erudita, mas em relação a praticamente todos os personagens do filme: para Anne-Marie eles são a descoberta de seu passado, da história de seus pais, de sua descoberta de si mesma; para Gavrilov essa é a chance de ele se redimir de uma crueldade e de um fardo de trinta anos, mesmo que ele não se julgue culpado por nada; até mesmo para o Teatro Chatelet eles representam uma redenção, a noção de música com alma, longe do que muitas vezes acaba se transformando em uma burocracia musical contemporânea; e finalmente para a própria orquestra há a justiça tardia.

Para aqueles que gostam de catalogar as obras por gêneros, provavelmente O Concerto será posto como “comédia”. De fato, há inúmeras gags e situações realmente engraçadas, fazendo do filme uma obra leve, fácil de ser assistida e até mesmo bastante acessível. Entretanto, não devemos nos resumir somente à isso, Mihaileanu nos apresenta um filme multifacetado no que diz respeito às emoções do filme. Se rimos e sorrimos em diversas passagens, outras nos deixam apreensivos e francamente entristecidos. Culpa também de Tchaikovsky. Não sou um grande conhecedor de música erudita, na verdade sou bastante ignorante nesse sentido já que dificilmente conheço algo que fuja do que “todo mundo conhece”, mas desse meu parco conhecimento, digo que Tchaikovsky é, provavelmente, meu compositor favorito, pois nele conseguimos identificar uma completa estesia, sentimento aliado ao furor, uma música que enche até a maior das arenas. Esse conceito de estesia é a pedra fundamental do meu entendimento de cinema: o cinema deve ser estésico, deve nos provocar uma gama de sentimentos intensos; claro que não necessariamente “este” ou “aquele” sentimento “desta” ou “daquela” forma, mas alguma coisa deve nos acontecer enquanto assistimos a um filme.

um Grand Finale

O Concerto triunfa como filme justamente por isso. Experimentamos ao longo da projeção diferentes sensações que nos parecem preparar (e realmente é isso que elas fazem) para as sequências finais, em que Filipov finalmente terá a chance de acabar com um concerto que ele havia começado há 30 anos. À isso soma-se um orquestra que nunca ensaiou, uma solista (a maior estrela de Paris) que jamais tocou Tchaikovsky, o atraso de dois membros da orquestra e a presença iminente do verdadeiro diretor do Bolshoi. Quando a peça chega ao seu auge, é impossível não se emocionar.

Acredito, infelizmente, que alguns críticos irão tecer comentários negativos sobre a falta de verosimilhança em muitas passagens que, convenhamos, são realmente inverossímeis… Mas e daí? Sempre que chego a essa situação lembro-me do mestre Hitchcock: “Ah! Nossos amigos, os verossímeis”, diria ele. Concordo com Hitchcock quando diz que o cinema de ficção não é a arte da verossimilhança, um filme não precisa e – muitas vezes – não deve ser verossímil, por que seria? Creio ser muito pequena uma discussão sobre isso quando falamos de uma obra que nos transmite emoções, quem se importa se elas são obtidas através da inverosimilhança? Eu não.

O Concerto (Le Concert) – Direção: Radu Mihaileanu, com: Alekseï Guskov, Mélanie Laurent, Valeriy Barinov e Dmitri Nazarov

Estréia dia 24 de dezembro de 2010

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