Karatê Kid (2010)

Posted 25 August 2010   Cinema, Crítica, Cultura

É complicado para todo mundo que cresceu nos anos 80/90 assistindo aos filmes de Daniel San e Senhor Miyagi ir hoje ao cinema para ver aquilo que está sendo vendido como o novo Karatê Kid (The Karate Kid, 2010). Se você é uma dessas pessoas, aqui vai uma dica: esqueça o título. Na verdade é difícil saber o que passou pela cabeça dos realizadores pra colocarem o título do filme de Karatê Kid, já que não há absolutamente nada de Karatê na película inteira. Talvez eles tenham pensado algo do tipo “o roteiro faz muitas menções ao Karatê Kid, se colocarmos outro título vai parecer que simplesmente o copiamos”, e então colocam o filme a perder. Antes o tivessem chamado de Kung-Fu Kid.

Bem, tirando esse tremendo deslize, eu me surpreendi bastante com o filme, esperava algo que fosse uma sombra distorcida de um clássico moderno e que falhasse miseravelmente em qualquer tentativa de satisfazer os fãs, mas não foi isso que aconteceu. Em linhas gerais, Karatê Kid (como eu reluto em dizer esse nome!) é um bom filme.

O roteiro é piegas, é verdade, mas assim como o original, ele é só uma desculpa para mostrar um jovem aprendendo a disciplina das artes marciais com um velho mestre em contraposição a uma escola boçal que simplesmente ensina a vulgaridade das lutas. Na nova versão há a aparente preferência dos americanos ao kung-fu, o que caiu como uma luva para uma versão mais atual em termos de política econômica global, já que a China é um mercado em ascensão e a mãe de Dre Parker (“o” Karatê Kid, interpretado por Jaden Smith) o leva para morar na China por ter sido transferida em seu trabalho numa fábrica de carros. Pois é, a globalização chegou à Sessão da Tarde.

Dre de cara se apaixona por Mei Ying (Wenwen Han), arrumando confusão com Cheng (Zhenwei Wang) um encrenqueiro e exímio lutador de kung-fu. Após previsíveis acontecimentos Mr. Han (Jackie Chan), o zelador do prédio de Dre, concorda em treiná-lo para o torneio. E é aí que o filme realmente começa a ficar interessante. Há claras citações e versões dos treinamentos do Sr. Miyagi no filme de 1984, mas de uma forma que faz sentido dentro do kung-fu, que afinal é uma técnica muito diferente do karatê. Por entender e mostrar isso, o filme ganha muitos pontos e chega a sair da sombra daquele que o inspirou, com destaque para a sequência em que Mr. Han leva Dre para subir a montanha e tomar água na fonte do dragão, onde Dre observa uma mulher hipnotizando uma cobra em um precipício, o que substitui, no filme, de forma satisfatória, o famoso golpe da garça.

Tecnicamente o filme é excelente, fotografia bonita e uma edição competente, só me aborrecendo durante o torneio em que um telão exibe cenas das lutas que acabaram de acontecer de uma forma que pareciam ter sido dirigidas por John Woo, mas não sejamos mesquinhos, o filme sobrevive apesar disso.

Em relação as atuações, o elenco de apoio é muito bom e os protagonistas Jackie Chan e Jaden Smith tem momentos contrastantes: Jackie Chan – aparentemente pela primeira vez em sua carreira – tem uma ótima interpretação, seu papel realmente passa certa profundidade e convence sem precisar apelar para o costumeiro balé que Chan se tornou especialista. Já Jaden Smith tem até bons momentos, mas ele parece ter seu pai (Will Smith) como modelo de ator (o que convenhamos é até natural) e parece querer ser o Fresh Prince of Bel-Air a cada instante, com aquela cara de malandro que simplesmente não cola em uma criança de doze anos e só faz é irritar.

Além de tudo, há dezenas de boas gags, explorando as diferenças culturais entre americanos e chineses, explorando a relação entre mestre e pupilo (como quando Dre pergunta por que havia um carro na sala e Mr. Han responde naturalmente que é porque não havia vaga na rua) e, finalmente, há boas piadas para aqueles que assistiram os filmes anteriores (o Sr. Miyagi pegando uma mosca com o hashi é parodiado por Mr. Han com um mata-moscas).

No final, a maior decepção é mesmo a sensação de que o título do filme foi colocado assim apenas para ganhar dinheiro em cima da nostalgia do público. Aliás, em uma década sem personalidade como a atual, explorar a nostalgia das pessoas parece mesmo o caminho do pote de ouro, Agente 86, Esquadrão Classe A, Alvin e os Esquilos (outro título medonho), Smurfs e Um Tira da Pesada 4 (prometido para os próximos anos) estão aí para provar isso. Pelo menos o cartaz de Karatê Kid é bonito.

“Karatê Kid” (The Karate Kid) – Direção: Harald Zwart, Com: Jaden Smith, Jackie Chan, Taraji P. Henson, Wenwen Han e Zhenwei Wang

Entra em cartaz dia 27 de agosto.

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