Adam Hughes

Posted 17 August 2010   Cultura, Quadrinhos

Apesar de me dedicar ao cinema nos últimos anos, minha formação base é nas Histórias em Quadrinhos. Eu praticamente nasci rabiscando e em 1995 (estou ficando velho) iniciei no curso de desenho e quadrinhos, no qual me formei em 2000. De lá pra cá meu interesse na área diminuiu bastante, de “serei o melhor quadrinista da Marvel” para “desenho quando quero”, de “compro todas as revistas da banca” para “só compro coisas especiais e velharias em sebos”. Algo que contribuiu para isso foi o fato de que os quadrinhos americanos (ou pelo menos os mainstream) são, via de regra, muito “quadrados”. Por “quadrados” quero dizer que não tem um jogo de cintura com as formas, são as dezenas de Jim Lees e cia. que fazem homens com os bíceps maiores que um melão e as roupas coladas no corpo de uma forma que parecem ter sido pintadas pelo Hans Donner na Globeleza. É claro que há excessões, como Alex Maleev, Terry Dodson, Jason Pearson, Tim Sale, Travis Charest, Esad Ribic, Alex Ross, Frank Cho,  etc. Há um desses artistas que pretendo falar: Adam Hughes.

Vi o trabalho de Hughes pela primeira vez em 1996, numa entrevista para a finada versão brasileira da revista Wizard (como faz falta!). A entrevista trazia, é claro, alguns desenhos de Hughes e eu me encantei na forma como ele desenhava as mulheres, elas eram lindas, fortes e ao mesmo tempo tinham aquele ar de divas do cinema antigo, coisa extremamente rara de se ver por aí. Desde sempre Hughes reclamou John Byrne como sua maior influência, mas mesmo Byrne (um dos grandes desenhistas da era de ouro da Marvel) não conseguiu obter o que Hughes parece conseguir com relativa facilidade.

Reconhece todas? Seu nerd...

Coisa que demorei para entender é por que os editores da DC Comics (ou mesmo Marvel e Image, onde Hughes trabalhou algumas poucas vezes) nunca deram mais trabalho ao artista, apenas capas, são raras as histórias completas que ele faz. Mas Hughes tem seu próprio tempo de trabalho, que comparado à maioria dos outros desenhistas é bem lento, dessa forma não é sempre que ele se arrisca a produzir vinte ou trinta páginas em tempo suficiente para ser lançado dentro da grade das Editoras. Sobram a ele as capas… e que capas!

A maioria dessas capas (as da DC Comics e algumas para a Image) foram lançadas no final do mês de junho em um livro chamado “Cover Run: The DC Comics Arts of Adam Hughes“. Um pouco desnecessário dizer que infelizmente só foi publicado (pelo menos por enquanto) nos Estados Unidos, mas isso não impede que nós brasileiros possamos adquiri-lo. O livro está a venda no site da Amazon (que entrega livros no Brasil, caso alguém não saiba) por US$26,39, o que com a taxa de entrega deve pular para algo em torno de trinta e poucos dólares. O meu há algumas semanas e digo sinceramente que vale cada centavo e cada dia de espera! O livro é de capa dura com uma capa especial por fora e tem mais de 200 páginas em papel de altíssima qualidade com impressão caprichada. Há comentários do artista para cada capa apresentada e dezenas de sketches e roughs. Nele podemos ver a trajetória de Hughes na editora, começando com capas da Liga da Justiça ainda nos anos 80, passando por algumas capas dos Legionários até chegar à Mulher Maravilha e Mulher-Gato (os principais destaques de sua carreira), tendo ainda alguns outros trabalhos, como Rose & Thorn, Voodoo, Gen 13, Power Girl e Super Man – O Retorno.

Dificílimo escolher um destaque do livro e impossível escolher um desenho melhor, mas creio que grande parte das atenções sejam naturalmente voltadas para as capas da Mulher-Gato, reformulada num novo (e muito melhor) uniforme e que Hughes faz com o rosto baseado na diva Audrey Hepburn. Há ainda um detalhe que deve instigar todos que desenham e todos que tem interesse no desenho: muitos trabalhos de Hughes, antes de serem coloridos no Photoshop, são “coloridos” em tons de cinza com marcadores Copic, canetinhas para os íntimos (claro que é quase um pecado relacionar os produtos da Copic com “canetinhas” convencionais).

O que mais me atrai na obra de Adam Hughes é que há tudo e mais um pouco ali: expressões faciais, expressões corporais (muito melhores e mais bem trabalhadas que todos os Kubert juntos, pode ter certeza). O artista não tem medo de brincar com as feições dos personagens, muito diferente da meia dúzia de rostos padronizados de Joe Madureira e cia, o que se deve, provavelmente à algumas outras influencias de Hughes, como os quadrinistas Steve Rude, Alex Raymond, Dave Stevens e Kevin Nowlan, os pintores JC Leyendecker, Drew Struzan, Norman Rockwell e Gil Elvgren e talvez sua influência mais explícita: Alphonse Mucha. Todos esses nomes estão listados no livro com comentários do próprio Hughes.

Qual é o segredo para a obra de Hughes? Creio que seja exatamente isso: suas influências. Em desenhistas como Jim Lee (a quem não canso de criticar) não conseguimos perceber grandes influencias que não sejam do universo dos quadrinhos, no próprio Lee, por exemplo, podemos perceber algo de Whilce Portacio, John Kubert e Marc Silvestri, todos eles com traços um tanto semelhantes. Já Hughes, como vimos, vai buscar inspiração em pôsteres de filmes, anúncios vintages e litogravuras da Art Nouveau, isso torna seu trabalho tão rico e diversificado que por vezes esquecemos que estamos olhando uma capa de uma revista da Mulher-Gato.

Conhecido como o “artista das gostosas”, Adam Hughes lança um livro obrigatório não só para quem gosta de quadrinhos, mas para todos que apreciam um bom desenho. Sei que este volume é um dos meus orgulhos da prateleira.

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