FILE 2010

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Posted 27 July 2010   Arte, Cultura, Eventos, Tecnlg

O FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) é bem mais honesto em seu título do que se supõe. Esta segunda-feira foi a abertura e eu, que estava lá, deixarei aqui algumas de minhas impressões.

Confesso de antemão que não fui para ver a exposição, mas para o evento da abertura aproveitando para reencontrar alguns bons amigos dos tempos de faculdade. É claro que uma vez lá dentro simplesmente não da para passar alheio ao que acontece, logo observei algumas das obras e interagi com outras. Como eu havia dito, o título do FILE é profundamente honesto, nenhuma das quatro palavras da sigla faz menção à “arte”, mas é de comum acordo que o Festival é um evento já importante no cenário da Arte Contemporânea não só da cidade, mas do país. E aí vai meu mais profundo pesar.

Sou formado em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp (onde também faço mestrado) e se há alguma coisa que aprendi nesses seis anos estudando artes é que a dita “arte contemporânea” quase sempre é pura bobagem. Conversando certa vez com Felipe Muñoz, aqui do GeeX! chegamos à conclusão de que a culpa é de Marcel Duchamp. Claro que Duchamp foi um gênio, revolucionou a arte, foi uma das personalidades mais importantes do século XX e é claro que essa “culpa” é apenas um chiste de gosto duvidoso. Mas foi, infelizmente, através de seu legado (da qual se fez outra importante personalidade: Hélio Oiticica) que se formou o cenário que se tem hoje e a que chamam “arte conceitual”.

A maioria das obras produzidas nesses termos (e muitas outras sob a alcunha de “abstratas”) não vão muito além de uma esquizofrenia egocêntrica por parte dos artistas. No caso do FILE esse egocentrismo esquizofrênico tem como principal o uso experimental da tecnologia, o que faz o Festival muito mais interessante para o público geral que uma galeria branca com dezenas de borrões de Tomie Ohtake. Porém até o fato de ser mais interessante para o público “leigo” que uma exposição de quadros ou esculturas deve ser tratado com cuidado, pois hoje o FILE não é uma exposição, é uma grande feira de ciências. Isso se dá porque novamente a parte “poética” dos trabalhos ou “o que está por trás da forma” se preferirem, está tão confinada na cabeça do “artista” e este mesmo “artista” apresenta tão poucos indícios que levem o público a essa poética que apenas o próprio autor compreende exatamente o que foi proposto. Isso se torna ainda mais grave se pensarmos que os parcos indícios apresentados só são decifrados por uma parcela do público: outros artistas, estudiosos, críticos de arte, enfim, outras pessoas que também fazem parte do seleto “mundo das artes”. O público “leigo” é deixado totalmente de lado, a arte é feita por artistas para artistas.

 

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O FILE é mais uma vez um grande amontoado de coisas para as pessoas brincarem (vulgo “interagirem”), olharem e quase sempre se decepcionarem. Como eu disse, vi apenas algumas obras, pois meu interesse, como deixei bastante claro, está seriamente comprometido já há alguns anos. Das obras que vi, destaque para um scanner que quando se coloca as duas mãos produz-se um barulho irritante como uma buzina de calhambeque; um projeção interativa que se assemelha um pouco com pong (a não ser pelo fato de suas “regras” serem absolutamente ininteligíveis) e um cinto preso a um rabo que você controla com um joystick: a única coisa da exposição que realmente rendeu algo.

Há ainda uma instalação na parte de baixo do prédio em que algumas pessoas passaram mal. A sessão que eu me inscrevi para entrar foi cancelada e não pude testemunhar exatamente o que era, mas uma amiga gravou e me relatou que são basicamente quinze minutos de muita fumaça (suficiente para não ver um palmo à sua frente) e luzes estroboscópicas. Fiquei na curiosidade.

É nessas ocasiões que me sinto profundamente mais ignorante por simplesmente não conseguir captar o que uma sala com fumaça e luzes que fazem as pessoas passarem mal significa. Antes que o caro leitor me critique por isso, reflita um pouco e com toda certeza chegará a uma das duas situações: 1- assim como eu, não conseguiu conceber uma explicação razoável; ou 2- baseado em suas próprias experiências e em seu próprio repertório conseguiu desenvolver uma teoria bastante aceitável (talvez até relacionada à caverna de Platão) e que, quem sabe, faz a obra até mais apetecível aos seus olhos (ou outros sentidos, que seja). Nesse caso, meus parabéns, mas não se esqueça que essa é sua teoria, não confunda com a motivação do artista. Mas se o caro leitor teve o previlégio de ter algum contato com o autor, que lhe explicou todo o processo da obra, então parece-me bastante evidente que seu entendimento tenha ficado dependente de uma “bula”, não? Claro que todos que estudaram um pouco de semiótica sabem que não se chega a uma interpretação final e única de nada, mas uma coisa é dar espaço para diversas leituras e outra bem diferente é apresentar uma folha em branco. Essa é a arte contemporânea como um todo: uma grande folha em branco.

O FILE não é diferente, uma galeria de obras e instalações sem nenhum significado para outros que não os próprios autores e que funcionam como brinquedos e passatempos, o que não deixa de ser profundamente irônico já que a dita “arte contemporânea” se propõe a ser cerebral e lúdica na mesma proporção. Essa “arte” consegue ser tudo, menos arte. Este ano as obras não estão apenas na Fiesp, mas espalhadas por diversos pontos, como as estações de metrô da região. Pode-se pegar a programação na Fiesp e ir seguindo a trilha das obras. Eu particularmente vou voltar para ver o resto e visitar – não nego – mais amigos envolvidos no Festival. Aconselho aos leitores a fazer o mesmo para tirar suas próprias conclusões.

O FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica acontece de 27 de julho a 29 de agosto no Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista e tem entrada gratuita.

1 Comment

  1. Pano rápido: http://www.caycepollard.com.br/ | Matéria “FILE 2010 = MAIS DO MESMO”

    Posted by Jairo Neto on 29 July 10 at 3:16pm [Reply]

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