O Cinema está Morrendo

Posted 02 July 2010   Cinema, Crítica, Cultura, Notícias

Acredito que “crítica cinematográfica” vá além de simplesmente relatar alguns filmes e dizer o quanto são ruins ou bons e o porquê. Acredito que ser um crítico é, antes de tudo, colocar-se em uma posição de defesa àquilo que chamamos de cinema, por isso e não por simples achologia ou gosto pessoal (como parecem crer alguns) justifica-se ataques a alguns filmes, movimentos, diretores (etc) e louvores a outros. É por esse motivo que decidi falar hoje de um assunto que não é propriamente um filme, mas um ambiente: O Cine Belas Artes pode fechar suas portas.

Para aqueles que não moram na cidade de São Paulo o nome pode parecer estranho ou a notícia pode até assustar caso haja um local homônimo em outra cidade, mas esclarecendo àqueles que não o conhecem: o Cine Belas Artes é um tradicional cinema de rua localizado na Rua da Consolação, esquina com a Avenida Paulista. Fundado em 1952 como “Cine Trianon“, passou por reforma em 1967 mudando o nome para “Cine Belas Artes”, sendo conhecido desde sua fundação por exibir filmes de circuitos alternativos, reunindo um público um pouco diferenciado dos que lotam os complexos Cinemarks a cada blockbuster, o Belas Artes mudou de nome e donos algumas vezes e em 2004 começou a ser patrocinado pelo banco HSBC, levando o título de “HSBC Belas Artes”. Nesses últimos seis anos o cinema nunca foi abandonado por seu público composto pelas mais diversas idades e camadas sociais; tornou-se notório, inclusive, através do “Noitão“: uma exibição tripla durante toda a madrugada (com direito a café da manhã) uma vez por mês. Mas eis que em março deste ano o HSBC cortou seu patrocínio e agora o cinema volta a correr o risco de fechar suas portas.

É claro que é triste pensarmos num cinema tão histórico fechando suas portas, tendo de se abster de sua promoção cultural e mais triste ainda se imaginarmos o prédio abandonado ou ainda com algum comércio instalado em seu lugar, mas a questão principal não é tanto este acontecimento, mas o seu porquê.

Algumas vezes me pego imaginando São Paulo nos anos 60 e 70, com dezenas de cinemas de rua exibindo diversos tipos de programações, cinemas convencionais e cinemas alternativos onde podia-se ver as estréias de Viver a Vida de Jean-Luc Godard ou Terra em Transe de Glauber Rocha, dois filmes que se tornaram marcos do cinema mundial. É claro que ainda hoje há alguns cinemas dedicados ao circuito alternativo, como o Espaço Unibanco, a Cinemateca Brasileira ou o próprio Belas Artes e é a defendê-los que este texto se propõe. A Cinemateca Brasileira é estatal, mas o Unibanco, por exemplo, não: o que aconteceria se o banco que o patrocina decidisse fazer o mesmo que o HSBC? Temo por um dia em que para ir ao cinema nossa única opção seja ir a um shopping center e pagar um preço exorbitante para adentrar a uma sala megalomaníaca afim de ver o mesmo filme que está passando em outros vinte shoppings.

Não é apenas por oposição à blockbusters que defendo os circuitos alternativos (eu mesmo assisto vários filmes nesses megalomaníacos complexos em shoppings), não defendo um outro paradigma, defendo uma alternativa. Não há demérito algum em haver dezenas de salas passando a nova galeria de efeitos especiais em 3D de James Cameron e cia., mas quando não há alternativa essas salas não são opções, são imposições. As poucas vezes que meu trabalho aos sábados me permitiu comparecer ao glorioso “Noitão”, senti-me privilegiado em morar em uma cidade onde era possível passar a madrugada assistindo filmes em uma sala lotada de cinéfilos. Basta dizer que a primeira vez que assisti As Férias de Monsieur Hulot de Jacques Tati (filme que indiquei em meu texto anterior) foi numa dessas exibições triplas. E isso pode acabar.

Os cinemas de rua de São Paulo entraram em franca decadência, muitos fecharam as portas e outros muitos viraram cinemas-pornôs. O Marabá passou por reforma e reabriu recentemente, algumas outras tradicionalíssimas salas acompanham esse processo evidenciando uma tentativa de se levantar esse tipo de cultura. Desnecessário enumerar os benefícios que a reabertura e o incentivo aos cinemas do centro iriam trazer à regiões como a República, perigosas a qualquer hora do dia e impraticáveis a certas horas da noite.

O que me parece é que cada vez mais nossa sociedade plastifica e cataloga a cultura como um item de supermercado, cada vez mais nos parece inviável a construção de uma contra-cultura contemporânea. O cartunista Robert Crumb já falava em 1994 (no documentário de Terry Zwigoff, Crumb, também citado no texto anterior) o quanto os jovens daquela época nem ao menos se davam conta de que havia algo além daquilo imposto pela cultura de massa. Esses jovens cresceram e o que podemos dizer de nossa população hoje? Somos mais cegos e incapazes pois nem ao menos temos consciência de nossa ignorância. Com o fechamento desses cinemas quantos de nós sentirão falta? Isso talvez pudesse ser lançado como algum argumento do tipo “se não sentirão falta é porque não é importante”, mas volto a frisar que em uma era onde tudo é dado numa bandeja de prata e a contestação não cabe no dicionário, esses cinemas são parte de uma resistência mais que heróica contra a aparente atrofia intelectual contemporânea.

O Belas Artes, afim de conseguir um novo patrocínio, tem realizado uma campanha, que pode ser acompanhada em seu blog e twitter. Para ser franco, acho a situação do Cine Belas Artes absurda. É absurdo um pólo cultural tão importante implorar para que alguma empresa a patrocine, é como se estivéssemos em uma dimensão bizarra onde o interesse geral não é o de participar de algo construtivo, mas de gerar lucro sobre lucro, só que não estamos em nenhuma dimensão bizarra, esta é nossa triste realidade.

Não deixem que isso aconteça ao Belas Artes, apoie da forma que for possível, nem que seja divulgando o blog e a campanha. Não sei vocês, mas eu sou um daqueles (nem tão poucos) que sentirão falta do ambiente e de tudo o que ele representa.

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