Yann Tiersen no Teatro Municipal, Piracicaba (22/05/2010)

Posted 25 May 2010   Crítica, Cultura, Música, Shows

Pré-Show

Então chegamos em Piracicaba às 16:30.

Mal sobrou tempo de um tour-relâmpago pela cidade, pois foi só contornar o Teatro Municipal que notamos uma multidão se aglomerando atrás dos benditos ingressos da apresentação do Yann Tiersen.

A coisa só foi piorando quando a noite chegou: a fila alcançava a rua, mostrando um contraste e tanto com o que deve ser a calmaria normal daquele bairro durante a semana. Uma vez que conseguimos o acesso ao Teatro, soubemos por fontes misteriosas (daquelas que eu não posso falar o nome, d’oh) que a trupe francesa tinha chego a cidade ao meio dia e demorado mais de três horas na passagem de som. Após longa discussão com a produção da casa, foi exigido que as caixas de som alcançassem os 110 dbs em contraste com os usuais 45 dbs utilizados por lá, criando todo um transtorno logístico para que se instalassem novas caixas ali.

“Esses caras são uma m%#@#. Nunca vi alguém demorar tanto numa passagem de som.”

“Mas e o Yann Tiersen, é bom?”

“Quê? Bom (pausa) tem quem goste né. Eu não gosto.”

Faltando meia hora antes do início da apresentação, o sr. Tiersen exigiu que toda a imprensa saísse do recinto para que ele pudesse fazer uma segunda passagem de som. Entre baforadas de cigarro, frio ameno, conversas neuróticas, ouvíamos algumas linhas de baixo abafadas pela porta do teatro. O nervosismo aumentou quando a banda tocou uma música inteira, onde quase todos ali mantiveram-se concentrados tentando reconhecer a composição.

Bom, fomos novamente informados das regras da apresentação e mesmo em meio a protestos quanto as limitações de registro do evento, retomamos nosso lugar no plateia.

E com uma hora de atraso, as luzes se apagaram.

Show

Set-list do show em Piracicaba

O sr. Tiersen subiu ao palco entre alguns gritinhos histéricos.

Ao observar uma plateia cansada, que estava sentada, tentando recuperar o sacrifício físico de aguardar horas pelo show, ele prontamente foi ao microfone e gritou de forma até curta e direta: “Vamos lá, levantem-se”.

E começou o show com faixas inéditas do também inédito e misterioso Dust Lane. Para a surpresa de muitos ali, pelo menos de algumas fãs de Amélie Poulain, o show foi composto por composições mais pesadas, com arranjos com uma pegada mais rock’n'roll.

E por “Rock”, vamos lá, mais ao post-rock. Diferente do seu neo-classicismo à la Phillip Glass e até diferente do rock mais “mundial” do álbum On Tour, o sr. Tiersen parece ter descoberto o Young Team do Mogwai no ano passado e desde então não parou de ouví-lo e estudá-lo. Portanto, no que diz respeito a faixas como Count Down, os arranjos do sr. Tiersen privilegiaram aqueles delays e chorus marcantes de momentos vistos em álbuns dos escoceses gremlins.

Outros momentos foram um tanto embaraçosos quando todos os músicos cantavam em uníssono, porém não em francês, e sim em inglês. Aí a coisa ficava tão embolada que não havia como diferenciar o que era uma mistureba de inglês com o que sobrava do sotaque francês do cantor. Haja paciência de alguns que não aguentavam o mesmo esquema de “entrada-refrão-explosão ao pisar no overdrive-calmaria final com teclados espaciais”.

MAS, o multi-instrumentista fez jus a sua fama ao empunhar seu violino em solos violentos, a ponto que fios do arco estouravam no ar com a mesma força que um punk destrói a sua palheta. Também agradou rapidamente alguns fãs desesperados, ao tocar o tema da Amelie em uma versão à la Emerson,Lake and Palmer, diretamente tirada de um teclado moog no palco.

No fim, foi um show honesto, barulhento e intenso, que deixou muita gente coçando a cabeça ao não entender que raios o Yann Tiersen quer de sua carreira: ou compor maravilhosas trilhas-sonoras ou abraçar uma rebeldia pueril que explode em faixas como Fuck Me.

Que ele é perfeccionista em ambas áreas, não tem como negar.

O GeeX! gostaria de agradecer as fotos do Erick Tedesco, que ilustram essa matéria – menos a foto pífia do set-list.

1 Comment

  1. gostei muito da crítica, acho que tocou em alguns aspectos essenciais que envolveram tanto a preparação do show quanto o show em si. mas acho que há outros pontos, tanto positivos quanto negativos, que também precisam ser ressaltados a respeito.
    a primeira questão diz respeito à organização do evento. para mim, foi totalmente inviável realizar um evento deste porte (convenhamos, uma atração internacional para a virada paulista é algo que não se espera) em um teatro, fechado, cuja espaço permite um máximo de 700 pessoas. Mesmo que eu tenha conseguido entrar tranquilamente, senti por aqueles que não o conseguiram e, pior, aqueles que vieram de longe para isso. assistir o show em um telão, no meio da rua e no frio, bom, preferia assistir o dvd de la traversée na minha casa.
    mas acho que quanto ao show, e aos poucos que conseguiram assistí-lo, tive uma impressão um pouco mais otimista, por assim dizer. posso dizer que eu, como grande fã de yann tiersen, já conhecia este lado dele mais “pesado”, sabia que ele vinha fazendo shows neste estilo há um bom tempo e que este não seria diferente. e imaginei que metade das pessoas que estaria lá, se perguntaria se esse é o mesmo compositor da trila de amélie e adeus, lenin!. mas devo confessar que a reação de muitas pessoas lá foi supreendente. mesmo entre vários que tapavam os ouvidos e os aplausos obviamente mais altos no fim de suas (poucas) músicas mais clássicas, muitos se emocionaram e se empolgaram com este seu lado mais rock de guitarras e teclados, pedindo até um segundo bis.
    talvez seja por eu gostar muito do trabalho dele, mas, mesmo achando que sabia o que me esperaria, o show me surpreendeu em vários sentidos.

    Posted by Barbara on 25 May 10 at 6:22pm [Reply]

Leave a Reply