Lost e o Fim

Posted 22 May 2010   Cultura, Seriados, Televisão

*ATENÇÃO* ESTE POST ESTÁ LIVRE DE SPOILERS SOBRE LOST. LEIA À VONTADE!

Sei que nem todo mundo curte Lost. Sei também que dentre os nerds em geral há uma larga fatia que não consegue dormir terça-feira de noite a bons 6 anos, sempre esperando um novo e intrigante episódio da série aparecer na internet. Fale bem ou fale mal, nenhuma série de tv lançada até hoje foi tão comentada, amada e odiada como a criação de J. J. Abrams. Esse final de semana, infelizmente, a série chega a seu tão esperado fim, e me pareceu imprescindível escrever algumas palavras sobre esse evento nerd que capturou corações e torrou tantos neurônios de tantas pessoas pelo mundo a fora.

Eu lembro quando Lost começou, com direito à episódio piloto vazado na internet causando enorme furor sobre a realidade do que significavam os mistérios presenciados pelos sobreviventes do vôo 815 da Oceanic. A queda do avião inclusive, por si só, já foi uma ótima maneira de chamar atenção, já que, nos idos de 2004, o mundo (principalmente os EUA) ainda respirava o medo que os ataques terroristas envolvendo aviões em 11/9/2001 deixaram no ar do mundo real. Qualquer coisa relacionada a aviões e acidentes despertaria no mínimo uma curiosidade na plateia, o que realmente aconteceu. Somando isso ao fato de que o episódio piloto da série foi o episódio piloto mais caro da história, o “hoax” surgido sobre a série na época acabou por atrair muitas pessoas, inclusive pessoas que não tinham costume de assistir séries.

Outra coisa que fez de Lost o sucesso que a série foi, indubitavelmente foi a presença da internet na equação. Lost foi a primeira série a realmente sofrer tanto prejuízos quanto lucros por conta da rede mundial de computadores e da possibilidade de troca de grandes arquivos que a banda larga proporcionou às pessoas. Durante a 2ª e 3ª temporada as médias de audiência do programa caíram números significativos, o que quase levou a série a ser cancelada precocemente. Entretanto, a popularidade da série, mesmo durante esse tempo, somente crescia devido às versões gravadas dos episódios que circulavam pela internet. Essa possibilidade também fez de Lost um sucesso mundial instantâneo, pois pessoas de outros países, que dependiam de prazos longos para tradução de legendas para verem seriados americanos em seus canais nativos passaram a ter de esperar apenas poucas horas até terem o release do episódio disponível para download em algum site .torrent. No Brasil, por exemplo, assistir a série por esse segundo método teve um efeito tão grande que até mesmo levou o canal de tv AXN, que transmite a série na TV a cabo brasileira, a se apressar e lançar os episódios inéditos da 6ª temporada no Brasil apenas alguns dias após a exibição nos EUA, fato que está ocorrendo e que acabará nessa próxima terça-feira, quando o canal exibe, com apenas 2 dias de atraso, o episódio final da série.

Mas o que Lost tem de tão bom, afinal? Na verdade, a série acertou em muitos pontos, e o primeiro é a questão do mistério. Eu, por exemplo, fui ao cinema essa semana e assisti o novo “Robin Hood” de Ridley Scott, que, aliás, odiei. O filme se resumiu a uma sequência de clichês inexplicados de filmes épicos de ação e não me surpreendeu em nenhum momento. O roteirista nem ao menos procura “criar um clima” de dúvida sobre o que irá acontecer, e apenas joga tudo na sua cara para você engolir e pronto. Lost, do contrário, soube prender o expectador através de mistérios que ficavam mais cabeludos a cada episódio. Tocando fundo na curiosidade do seu público, não haveria como não o prender, nos obrigando a querer ver o próximo episódio o quanto antes, certo? Não é bem por aí. Dispertar a curiosidade do público só dá certo se você tem criatividade o suficiente para desenvolver uma história que pague o mistério. Se quem assiste gastar energia e tempo vendo uma série e não for correspondido com uma história consistente, fatalmente essas pessoas vão desanimar e procurar outra coisa pra fazer. Pegue por exemplo o que aconteceu com “Heroes“, que começou com uma grande primeira temporada, sendo apontada como “a série sucessora de Lost”, mas que definhou durante os outros anos por conta de roteiros pobres e que tratavam todos os grandes mistérios da primeira temporada como meras coincidências. Os produtores de Lost souberam lançar os mistérios, mas prenderam realmente o público ao lhe dar resoluções sempre espetaculares, que tiravam o público do lugar-comum e simplesmente estouravam os miolos de todos com reviravoltas gigantescas na linha de raciocínio da história. Vemos claramente que cada temporada não é meramente uma repetição da temporada anterior, apenas com novos enredos. Cada uma delas tem um mote próprio, um início e um fim bem definidos e uma história central quase independente, não ser os mistérios da ilha e pelos personagens.

E por falar dos personagens, Lost foi uma série focada neles. A moral básica da série, onde não se sabe ao certo quem é mau e quem é bom, conduz o público a conhecer personagens incríveis com os quais há fácil identificação. Entretanto, assim como acontece com a ilha, ninguém sabe ao certo quem é quem e o que cada um é, nem mesmo os próprios personagens. Conforme a história é contada vão sendo revelados os traços da personalidade de cada um deles, e vamos vendo que, assim como no mundo real, julgar os outros apenas pela aparência ou por fatos isolados não é uma boa. Algo memorável da série que facilitou essa identificação do público foi a forma de contar essas histórias através de recursos de edição ousados como flashbacks, flashfowards e até mesmo flashsideways, sempre com episódios focados nos personagens. O poder de tal forma de comunicação visual foi tão bem explorado na série que até agora, faltando apenas um episódio para a mesma acabar, nós, expectadores, ainda nos sentimos meio perdidos em meio a tanta informação e tanto mistério.

Goste ou não, todos que tem o mínimo conhecimento sobre a indústria do entretenimento tem que concordar com uma coisa: Lost mudou a maneira das pessoas encararem os seriados americanos. Ela não foi a série que começou com isso, claro que não, mas, sem sombra de dúvidas tornou o “baixar episódios de série pela internet” algo conhecido não só de geeks e nerds, mas de grande parcela da população que nunca se havia ligado nesse tipo de produto cultural. Um bom exemplo disso aconteceu comigo, outro dia, onde me peguei numa discussão flamejante com o velho pai de um amigo, que apesar de sua idade avançada e dificuldade com tecnlogia (ele pede pro filho baixar os episódios e rodar na tv de casa) tinha teorias tão ou até mais malucas e profundas do que as minhas. Essa democratização que Lost trouxe, inclusive sendo ajudada pela tão “condenada por nós” inclusão digital, causou um impacto de tamanho considerável em nossa cultura e, por isso, a série merece respeito.

E o que fazer agora, com o fim da série? Boa pergunta, amigo leitor. Eu confesso que ainda não tenho certeza de como vou estar amanhã após ver o tão esperado episódio. Confesso que, apesar dos produtores nunca terem me decepcionado nos “season finales”, a expectativa pela resposta de inúmeros mistérios me deixa com um dedo do pé atrás. Tenho certeza que vou gostar, ficar com aquele nó na garganta e possivelmente alguns minutos sem respirar após o saudoso “POoo – LOST” aparecer na tela. Mas como será a reação de alguém que a 6 anos passa muitas horas discutindo, lendo, pensando e quebrando a cabeça para que tudo faça sentido dentro dela, isso eu não posso garantir. E sei que vocês também se sentem assim.

Mas pensando bem, eu não espero de Lost nada menos que isso. Afinal, isso é o que chama atenção na série e é por isso que ela fez tantos fãs durante seu tempo de vida. Com isso em vista, acho que estamos todos prontos para o momento que nenhum de nós gostaria que chegasse, mas chegou. Lost. Que venha o Fim.

(Ah… pra quem, como eu, gosta de acompanhar a resolução dos mistérios da ilha, ficadica do post sobre tal assunto no blog Teorias Lost, um dos melhores sobre a série na minha opinião. Mas ATENÇÃO. ESSE SIM CONTÉM SPOILERS!)

Namastê, pela última vez.

Leave a Reply