Doce de Coco (2009)
Por mais que estudiosos indiquem, apontem, reclamem e chiem, há uma conformismo que a dita segunda retomada do cinema brasileiro ocorreu com o lançamento em 2002 do Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Divisor de águas em linguagem em nossa filmografia, o filme teve amplo reconhecimento mundial além de ter gerado grande impacto cultural, com personagens e gírias impregnando-se por entre o imaginário de nossas vidas.
Estamos em 2010 e o filme do diretor Penna Filho, Doce de Coco, é lançado no circuito restrito de cinemas em São Paulo.
Situada em uma cidade do interior, a comédia foca na vida da família da sacoleira Madalena e o artesão-sacro Santinho (Hélio Cícero), que por entre dívidas e problemas financeiros, precisam lidar com fofocas sobre a vida particular de sua filha. Enquanto Santinho aposta a sua “fezinha” na loteria, Madalena acredita veemente em um série de sonhos que apontam para um futuro mais promissor: a existência de um tesouro escondido no cemitério da cidade.
E aqui retomamos a discussão.
O filme de Penna Filho é essencialmente uma comédia de costumes, funcionando em uma mecânica quase similar ao de uma novela televisiva. Estritamente ligado à uma narrativa clássica, o filme é contado de uma forma tão linear que parece o bê-a-bá de uma receita de doce de coco. O problema é que por mais que se defenda que o filme é descontraído e aberto a qualquer público, é impossível que ninguém note um certo desconjunto na obra.

Santinho (Hélio Cícero) esculpindo seus santos.
Digamos que pelo gênero ter uma origem teatral, a escolha de enquadramentos é voltado ao plano-cena, aquele do qual o cinema brasileiro foi (e talvez ainda seja) impregnado. O problema é utilizá-lo de forma sustentável a história. O cinema italiano utilizou-se muito deste artifício, como nas obras do Vittorio de Sica, mas ali a necessidade de “vermos” toda o ambiente dos personagens era mais para nos conectar e sensibilizar com sua situação, louvando uma humanismo cênico que é diferente do utilizado por Penna Filho.
Aqui precisa-se amarrar melhor a história com atuações convincentes, coisa que Doce de Coco falha de forma cruel. Um competente Hélio Cícero entrega um trabalho responsável em seu Santinho, mas o resto do elenco alterna momentos cômicos com atuações que envergonham qualquer espectador mais desavisado. Outros personagens vão e voltam sem grande suporte à história do filme, e o pior mesmo é uma voz em off de Santinho que mais atrapalha do que ajuda. Ainda por cima, a direção de arte é mal resolvida, com cartazes desenhados à mão que quase deixam o filme comparável a uma produção de oitava série, o que causa mais ruído desnecessário para a narrativa.
Pior mesmo é encarar o filme e saber que a história merecia um tratamento melhor. Há um subtexto quanto a ditadura militar que é explorado de forma pueril e que merecia um trabalho no mínimo mais denso. Existe uma necessidade do cinema brasileiro produzir mais e mais filmes, sejam eles bons ou ruins, mas manter-se tão apegado ao passado é quase como um passo a “não-evolução”. Existem momentos de Doce de Coco que se pausados lembram exatamente filmes da década de 70 são incessantemente reprisados no Canal Brasil. Produzir obras que são tão ligadas ao classicismo (referência fundamental para as novelas da Globo) e que não fogem de obviedades visuais e narrativas do século XIX, não estimularão o público nem em alugar o DVD do filme.
Sobra apenas uma lição sarcástica de um dos personagens do filme, que quase como num presságio fala: “Na televisão, nada se perde, tudo se reprisa”. Bom, troquemos televisão por cinema e vocês entenderão a mensagem.
“Doce de Coco” – Diretor: Penna Filho, Com: Antonella Batista, Hélio Cícero e Maria Carolina Vieira.
Entrou em cartaz no dia 14 de Maio.










Fico impressionada com a classificação deste filme: Comédia. O engraçado é que o filme é realmente uma comédia em seu resultado final, e não na intenção de se fazer uma comédia. Tive a oportunidade de assistir ao filme ontem durante a virada Gastronômica no HSBC Belas Artes e confesso que meu divertimento veio do choque de ver um conjunto de erros grotescos. Já nos primeiros momentos do filme, a fala da personagem Madalena, em sonhos – “uma virgem de ouro, puxa…uma virgem” – revela o nível de atuação que nos espera por mais 100 minutos. Com exceção de Hélio Cícero (que ainda sim está desencontrado no filme) o resto do elenco é digno de riso, um riso que se transforma em gargalhada até o ponto em que chegamos a ter pena dos atores. É possível enxergar o texto ao vê-los atuar. Todos os personagens revelam a falta de realismo dentro dessa suposta proposta neorealista, mas sobretudo as velhas fofoqueiras da cidade.
A fotografia nos faz lembrar todos aqueles filmes nacionais antigos que mais parecem um teatro filmado, da época em que usava-se tripé em cenas que duravam 20 minutos ou mais. Quanto ao set, conseguiram fazer uma cidade real parecer um cenário mal feito digno de Projac.
A forma de abordar temas como a ditadura é no mínimo infantil. O que me impressiona também é a completa falta de bom senso por parte do diretor e dos próprios atores para reconhecer a artificialidade das cenas e permitirem que aquele material fosse finalizado.
Por fim e sem mais demora, o filme é uma piada e só se sustenta caso onsiderarmos o fato de que nesses últimos tempos o tosco acaba virando sinônimo de cult. Ainda assim vai ser difícil!
Ao menos o doce de coco servido na hora tava bom?
Ahh o doce tava ótimo!rs
Acho impressionante não se perceber o tom proposital de tudo isso.Os personagens são caricaturais,a “pobreza” dos cenários…tudo isso ilustra o que possivelmente este diretor quis passar…
Tenho notícias muito boas a respeito da aceitação deste filme.Acho uma lástima o tipo de comentários postados aqui.
Entrei no site do diretor Penna Filho e até comprei dois DVDs de sua autoria: Naturezas Mortas (premiado em Gramado) e Fendó (prêmiado em Portugual e tbém aqui no Brasil).Vale a pena conhecer para entender um pouco mais o “olhar” deste diretor,que me parece que não é nada infantil!