…E ELE DISSE “QUE HAJA CINECLUBE”

Posted 28 April 2010   Behave, Editorial

Hoje o Freddy Leal nos mostra uma visão de uma experiência particular que visa difundir a sétima arte e suas discussões: a formação de um cineclube.

Se você compartilha dessa euforia pelo conhecimento, tem experiências próprias – com cineclubes, videoclubes, ou mesmo sessões de Esquadrão Classe A na sala de casa com os amigos – diga também! E se tiver outras iniciativas que queira divulgar, tome este texto como base, e mostre a todos o seu trabalho :)

por Freddy Leal

Hoje venho falar de uma experiência da qual orgulhosamente participo e que vem dando certo há quase um ano: O Plano 8 – Clube de Cinema. Este é o nome que demos ao cineclube organizado no Instituto de Artes da Unesp, no campus capital (sim, existe um campus na capital e ele já nem é mais tão pequeno nem tão escondido quanto antes).

A iniciativa partiu de quatro alunos: eu (que havia começado o mestrado em artes poucos meses antes), o aluno José Osmar (então no quarto ano da graduação em Artes Visuais) e as alunas Anita Polatti e Carolina Rozin (ambas, na época, no segundo ano de Artes Visuais). A idéia de um cineclube na Unesp não era inovadora, eu mesmo já havia tentado implantar um, sem o menor sucesso. Acredito que o segredo do sucesso deste e o fracasso daquele se deva a uma mudança de postura: um cineclube não é algo que mobiliza grandes públicos, afinal alguns cinemas já passam por problemas de público exibindo o mesmo filme por várias vezes, o que dirá um cineclube que passa um filme apenas uma (e dificilmente um filme extremamente convencional).

Até hoje tivemos alguns recordes de público girando na casa das vinte pessoas, mas são casos isolados, nossa média tem sido algo entre cinco e sete pessoas. Alguém desavisado pode pensar nesses números como um fracasso, mas muito longe disso, como comentei, um cineclube independe de uma casa cheia para cumprir o seu papel. Se houver apenas uma pessoa sentada ali, assistindo ao filme, então temos o orgulho de dizer que fazemos aquilo a que nos propomos.

E se o cineclube funciona de forma diferente da de um cinema convencional, como ele funciona? A que ele se presta exatamente?

No nosso caso, o Plano 8 desde o início se propôs a preencher uma lacuna geral dos cursos do Instituto de Artes. No IA – como o chamamos – há três grandes áreas de atuação acadêmica: artes visuais, artes cênicas e música. Nos cursos de nenhuma dessas áreas há um enfoque direcionado para cinema (há, pelo contrário um pré-indisposição de alguns professores e alunos de música em tratar de trilha sonora, por exemplo). Isso, acredito é uma perfeita anomalia, já que o cinema é, antes de tudo, um lugar comum às três áreas. Procuramos então, pelo menos de início, iniciar uma consciência cinematográfica no instituto. É claro que não nos colocamos como donos de uma verdade, como “o que é bom” ou “o que é ruim”, mesmo porque nenhum organizador sério faria tal papel, nem mesmo Henri Langlois (o famoso diretor do cineclube ao qual Jean-Luc Godard, François Truffaut, Eric Rohmer e Jacques Rivette – entre outros – frequentavam). Ao contrário, nos damos o papel de instigadores, não damos uma resposta, mas sim fazemos uma pergunta.

Com nosso papel enquanto cineclube definido, passamos à organização de fato. Optamos por uma estrutura mensal, em que cada mês haveria um tema geral e tanto os filmes (exibidos quinzenalmente) quanto as discussões que pretendíamos fomentar deveriam seguir esse tema. No mês de estréia, escolhemos como tema a “metalinguagem no cinema”, nada mais propício, acredito. Os filmes foram Cada um Com seu Cinema (uma coletânea de curtas-metragens encomendados pelo presidente do Festival de Cannes à alguns dos mais notórios cineastas contemporâneos) e Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore. Na edição seguinte propomos o tema “Ctrl+C Ctrl+V (Remakes)”, onde escolhemos um filme e seu remake para analisarmos por que, como e o que muda de um para o outro. Os filmes foram La Jetée, o curta de ficção científica feito em fotografias de Chris Marker; e Os 12 Macacos, a versão de Terry Gillian.

Em seguida, consideramos exibir alguns filmes mais decisivos na história do cinema, colocamos então o tema “Surrealismo & Dadaísmo“. Neste mês passamos dois curtas e dois longas: Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel e Salvador Dali; Entr’Acte, o filme encabeçado por Marcel Duchamp, René Clair, Eric Satie, Francis Picabia e Man Ray; O Sangue de um Poeta, de Jean Cocteau e finalmente O Anjo Exterminador, um filme de Luis Buñuel já mais distante da época vanguardista, mas nem por isso menos provocante. Ao mês seguinte demos o título apenas de “Trash“, exibindo os icônicos Plano 9 no Espaço Sideral, de Ed Wood (considerado o Cidadão Kane dos filmes B) e Faster, Pussycat! Kill! Kill!, de Russ Meyer (talvez o maior nome do exploitation americano).

Adaptações Literárias” foi o tema seguinte. Exibimos, então Vidas Secas, o clássico cinemanovista de Nelson Pereira dos Santos e o recente A Culpa é do Fidel!, de Julie Gavras. Para fechar o ano de 2009 fizemos um mês com a temática “Animações Européias Contemporâneas“, onde mostramos Azur e Asmar de Michel Ocelot e O Segredo de Kells de Tomm Moore e Nora Twomey.

Em cada um desses temas procuramos apresentar questões alternativas, como no mês de outubro onde exibimos o filme de Russ Meyer e os presentes puderam identificar um pouco o que influencia cineastas como Quentin Tarantino; ou ainda em dezembro quando mostramos animações diferentes do “padrão Disney” a que todos estão acostumados. Esse é, ao meu ver, o papel primordial do Plano 8: despertar a consciência que há muito mais coisa para se ver e se conhecer do que o que mostra a prateleira da locadora. Paradoxalmente, nós produzimos leigos ao invés de especialistas, já que a maior descoberta é sempre que há mais coisas para se descobrir.

Para melhor cumprirmos o papel de “consientizadores” decidimos, desde o início, investir em duas outras frentes paralelas às exibições: os grupos de discussão e o periódico. O primeiro se mostrou infrutífero em 2009 e está atualmente sendo repensado. O segundo, a publicação que chamamos de Anexo, terá seu segundo número publicado neste semestre e seu terceiro no semestre que vem. O Anexo é uma revista no esquema fanzine em que alunos e ex-alunos publicam textos sobre cinema, uma iniciativa inédita dentro do instituto.

No ano de 2010 o Plano 8 continua de vento em popa, tendo organizado uma mostra especial durante a semana dos calouros (o Cinebixo) e estreiado sua programação em março com o tema “Adaptações Inusitadas” com os filmes Os 7 Suspeitos, de Jonathan Lynn (baseado no jogo de tabuleiro “Detetive“) e Across the Universe, de Julie Taymor (baseado em músicas dos Beatles). Em abril o tema foi “A Fotografia no Cinema Oriental Contemporâneo” com os filmes Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera de Ki-Duk Kim e Amor à Flor da Pele de Wong Kar Wai.

Nosso cineclube é relativamente novo (fará um ano em breve) mas tem mostrado resultados. Se você é aluno da Unesp, junte-se a nós e participe, e se você é um entusiasta, anime-se, as exibições são abertas ao público, duas quartas por mês às 18h30 na sala 504 do Campus Barra Funda, da Unesp.

Mais informações (além de outros textos críticos) há o blog: http://plano8cinema.blogspot.com

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