As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay
por Mari Amaro
New York, 1939. Em um quarto escuro, dois primos que nunca haviam se conhecido travam o primeiro dialogo enquanto dividem a mesma cama. Os dois são judeus, um deles fugiu de seu país e outro ignorado no seu. Um artista e um apaixonado por quadrinhos, assim começa o livro As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, obra ganhadora do prêmio Pulitzer de melhor ficção em 2001 de Michael Chabon.
A chamada época de ouro dos quadrinhos é o pano de fundo e ao mesmo tempo o motor da trama, já que os protagonistas são dois “quadrinistas” que criam um dos heróis mais famosos da época O Escapista. Um herói que adiquire seu poder ao ganhar do seu mestre moribundo uma pequena chave que adquire poderes que permitem abrir qualquer fechadura, se soltar de qualquer corrente e sair de todas as caixas. Em seu uniforme azul escuro (com a cueca devidamente acima das calças), uma máscara à la Zorro e uma grande chave amarela em seu peito, o Escapista sai ao mundo distribuindo POWS e KAPOWS em Nazistas e (depois de 45) Comunistas pelo mundo todo.

O melhor personagem que nunca existiu, assim é o Escapista o personagem meta-fictício que existe somente no mundo que Micheal Chabon escreveu conhece.
Joseph Kavalier, 20 anos, (se apelida com a alcunha americanizada de Joe para se sentir mais incluído) desenhista, mágico e treinado na técnica do escape foge de sua vida na Polônia ocupada pelos alemães. Sam Klayman (que muda seu nome para Sam Clay pelas mesmas razões do primo) é um rapaz que trabalha para uma empresa de publicidade 0 (fazendo algumas vezes desenhos para ilustrar comerciais), abandonado por seu pai ( que trabalhava em um circo como “o homem mais forte do mundo”) e com problemas de auto-estima. Joe, apaixonado por quadrinhos, apesar de não desenhar muito bem descobre em seu primo a chance de se tornar alguém fazendo o que ama.
Enquanto se lê este maravilhoso livro é possível rir da ingenuidade dos roteiros de HQ dos anos 40 e 50 (que são ótimos alias), invejar o fato de míseros 20 cents ser o necessário para comprar um bom quadrinho, de que o Superman era “A” novidade do momento, de sentir todo o clima da época que antecedeu a entrada dos EUA na Segunda Guerra e a mistura entre o entusiasmo dos americanos e a depressão daqueles que tiveram que fugir do seu país para poder viver. Entre o amargo e doce, entre a fama e a fuga, entre a comédia e o drama, este livro fica sempre no limiar – uma linha estreita entre todos estes sentimentos – o que torna a aventura de dois rapazes mais incrível que muitos mascarados por aí.
O autor não só cita personagens que nos são queridos (Superman, Batman, Fantasma, Spirit e muitos outros) mas também faz insigths que qualquer fã de quadrinhos já discutiu um dia (a motivação do Batman para combater o crime ou o significado do Superman), trazendo assim uma gama de desenhistas e roteiristas de quadrinhos famosos para a história e os coloca lá como pessoas normais, travando diálogos rotineiros. Estamos falando aqui de pessoas como Stan Lee e até , mesmo que brevemente, Will Eisner.

A evolução dos quadrinhos que de um entretenimento barato de criança passa a ser uma reconhecida forma de arte.
Depois de ler o livro só tive uma vontade enlouquecedora, ler um quadrinhos do Escapista! A história (imagino à La Capitão América) e as descrições, por ser ao mesmo tempo previsível e criativa, aqueles roteiros que só cabem nos quadrinhos old school ( onde o meu é mau e o herói é apenas uma pessoa que se livra das incapacidades do seu ser e da sociedade para salvar o mundo). Então fiz uma pequena pesquisa e descobri que o Escapista existe no nosso mundo também.
Alguns anos depois uma história em quadrinhos baseado no Escapista do livro foi lançada nos Estados Unidos, Michael Chabon Presents The Amazing Adventures of The Escapist. E novamente nomes célebres (Glen David Gold, Kevin McCarthy e outros) entram na roda para transformar o herói em “realidade”. Eu infelizmente não tive acesso – ainda – a este HQ (que nunca foi publicado oficialmente no Brasil) mas sei que ele ganhou um prêmio Will Einser, e isto já o suficiente para me convencer a adicioná-lo a minha estante.
Então se você está de férias e a procura de algo realmente bom para ler, bem aí está o seu livro.










O quadrinho do Escapista que saiu agora nas livrarias tem a última história do will eisner, justamente um encontro entre o personagem do Chabon e o Spirit. acho que o Escapista é um super-herói metalinguistico, que consegue resumir tudo que o gênero tem de mais legal, a capacidade de te fazer “fugir” para um lugar melhor, ao contrário dos super-heróis realistas, sombrios e depressivos de hoje em dia.
Um bom texto, Mari Amaro, parabéns!
ops, não queria dizer exatamente “um lugar melhor”,de maneira redutora e ingênua, mas sim que o gênero serve principalmente para divertir e fugir dos problemas que a realidade já tem, mesmo que, como é característico de qualquer boa história, possa te levar à reflexão. ufa, agora sim.