Noite de trabalho
Era um daqueles dias de 36 horas. Clarice fazia serão no seu serviço, arquivando fichas numa sala onde a única iluminação era uma velha lâmpada empoeirada que piscava vez ou outra devido ao mal contato do soquete.
Ela estava cansada, estava sozinha, a única coisa que a entretia eram as músicas em seu player – e bateria estava acabando.
A porta do arquivo se entreabriu, uma sombra penetrou na pouca luz, Clarice não percebeu. A bateria do player acabou.
“Droga, logo agora na melhor música…” – disse a garota, tirando os fones, frustrada. Virou pra trás para colocar o aparelho próximo a mochila, e deu um salto assustada.
“Manolo! Que susto! Você quase me matou do coração, pensei que estava sozinha aqui!” – disse para o rapaz.
Manolo era um jovem aprendiz, tinha problemas de audição, então leu atentamente os lábios de Clarice e respondeu em libras que estava saindo e iria deixar a chave sobre a mesa da garota.
“Ok! OBRIGADA!” – respondeu em voz alta e articuladamente.
O garoto se foi e Clarice continuou arquivando as coisas, assoviando um trecho da música que ainda estava em sua cabeça e a luz continuava piscando. Agora sim, só ela estava no escritório, e já passava da meia noite. Um horário perigoso para fazer hora extra em um lugar no meio do centro da cidade nesse horario.
Um barulho estridente, como que de uma bandeja de metal caindo no chão, tomou conta do silêncio, acordando Clarice que cochilou de joelhos no arquivo.
Assustada a garota se levantou, sabia que estava sozinha e isso a deixou mais aflita.
“Q-quem está aí?”- gritou por uma fresta da porta.
A luz piscando, aumentou o intevalo entre ligada e desligada e apagou.
Clarice não sabia o que fazer. Seu coração palpitava forte. Ela torcia para que Manolo tivesse esquecido algo e logicamente não estivesse a ouvindo.
Abriu a porta com cuidado, mas um rangido foi inevitável.
“…droga…” – resmungou baixinho e continuou abrindo a porta até conseguir passar delicadamente seu corpo com aperto para não fazer barulho algum.
Outro som quebrou o silêncio, parecia o barulho de porcelana despedaçando no chão… Imediatamente Clarice lembrou da boneca de porcelana que ficava em cima da mesa de sua chefe. A cada segundo que passava ficava mais assustada.
Caminhou nas pontas dos pés até chegar à cozinha, comodo que ficava mais próxima do arquivo. Espiou com parte da cabeça para ver sua mesa – que por sua vez ficava de frente pra porta da cozinha. A chave que Manolo disse que deixara lá, ainda estava ao lado de seu telefone.
“Então é impossível ter alguém aqui…” – pensou a garota, no escuro, iluminada sutilmente apenas pela luz do luar.
Menos assustada, Clarice respirou fundo, ficou ereta e foi para perto de sua mesa. Alcançou o interruptor, mas as luzes não acendiam.
“Ótimo…” – disse em um tom normal e engasgado.
Pegou suas coisas da mesa para colocar na mochila e lembrou-se que a havia deixado no arquivo. Clarice olhou pra trás, e a escuridão fazia parecer com que as portas que separavam sua mesa do arquivo estivessem a quilometros dali, mesmo o apartamento tendo apenas 40 m™.
Clarice colocou a mão sobre a face, e balançou negativamente a cabeça. Começou a caminhar até a cozinha, quando sentiu como se tivesse esbarrado em alguém.
“Ahmm?” – virou o rosto pra cima, para os lados e não achou em que ou em quem havia batido e não viu nada ou ninguém e com a pouca luz, tinha menos certeza ainda.
Estava com sono, desnorteada, saiu correndo em direção à porta do arquivo – que felizmente ficava próximo de uma janela que conseguia ilumar um pouco mais. Pegou sua mochila, colocou o que tinha nos bolsos e na mão lá dentro… mas ainda havia se esquecido da maldita chave.
“Ave maria cheia de graça…” – Clarice começou a rezar, pois não sabia mais o que fazer.
Mais um barulho de algo caindo no chão, dessa vez ela não associou a nada o som. Não conseguia pensar, apenas gemia de medo enquanto balbuciava sua oração.
De repente, um vulto fez-se visto próximo a cozinha. Clarice gelou a espinha. Outro som de algo caindo. Outro, e mais outro. Clarice estava paralisada, abraçada à mochila, rezando sem parar pela décima quinta vez. Passaram-se assim, uns vinte minutos – ou uma hora ou duas, ela não tinha mais noção do tempo ali. Lentamente, Clarice levantou a cabeça, mais lentamete ainda abriu os olhos. A sua frente um sorriso, desconhecido. Clarice só teve tempo de arregalar os olhos antes de cair inconsciente.
–
O sol tomava conta do lugar. Era o primeiro dia ensolarado da semana, e a temperatura já vinha rachando os 30 graus. Eduarda estava pronta para mais um sacal dia de trabalho na contabilidade de sua tia. 8 horas da manhã, ela seria a primeira a chegar hoje, precisava adiantar algumas coisas. A porta do elevador se abriu e Eduarda notou algo estranho no chão. Achou porém, que fosse só fanfarronice dos garotos que moravam na frente do apartamento que abrigava o escritório. Ao sair do elevador porém, viu que estava errada – ou queria estar, e muito. Um corpo masculino, estirado no chão metade pra fora do escritório, outra metade dentro, a porta do apartamento dos garotos em quem ela havia pensado alguns segundos atrás estava escancarada e nenhum barulho se fazia em lugar algum até o momento em que ela berrou com todo seu diafragma, em um grito estridente que fez até os pontos voarem do peitoril da janela. Dali, desmaiou.
“Bom dia flor do dia…” – uma voz grossa e rouca disse.
Abrindo os olhos lentamente, Eduarda tentou coçá-los, mas não conseguia, parecia que não sentia seus braços. Com dificuldade os abriu e não reconhecia onde estava. Mas olhou para o lado e reconheceu a pessoa ao seu lado.
“Clarice..ahmm.. ungh..” – sentia uma dor, uma pontada nos extremos dos membros, mas não sabia o que era.
“Ela não vai lhe responder.” – a voz disse novamente. Eduarda então percebeu que a voz vinha de trás dela e sentiu uma mão aspera alizar sua cabeça.
“Mas o que é isso? Pelamordedeusmoço, eu não fiz nada!” – a garota estava apavorada.
“Não precisa fazer. É só uma brincadeira!” – disse a voz, enquanto agora passava a mão sobre o ombro de Eduarda.
“Ahhhhhh!” – gritou a garota tentando se mexer, mas não sentia nada além de sua cabeça.
“Isso é inútil. Eu tomei precauções.” – disse a voz que continuava a passar a mão no corpo de Eduarda, mas ela já não sentia.
O dono da voz então caminhou para a frente de Eduarda, que estava zonza de dor e de medo. Tocou o cotoco do ombro da garota, onde ainda recentemente tinha um braço, e lambeu o sangue que dali escorria. Foi quando Eduarda olhou novamente para Clarice, e percebeu que ali só estava o torso da colega de trabalho, e cabeça pendurada por um pedaço de pele. Eduarda olhou com dificuldade para baixo e para os lados e viu que seus membros não estavam mais lá também, sentiu ansia, mas não conseguia vomitar, seu corpo não respondia do mesmo jeito. Só lhe restava chorar.
“O que é isso minha garota, levante a cabeça…” – disse o dono da voz sombria, um homem, de cabelo liso e desatualizado, parecia alguém saido de algum filme de sessão da tarde, com o corpo troncudo, barriga proeminente e olhar profundo com um sorriso amarelado, ela não fazia a mínima ideia de que era esse homem.
Chorava e colocou a cabeça para trás, como que num momento de abandono da própria vida e sorte, cansada só de pensar do que seria dela se saísse de lá. Foi tempo suficiente para o homem acertar o pescoço de Eduarda com um machado.










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