Eu, Ela e Minha Alma (2009)

Posted 27 October 2009   Cinema, Crítica, Cultura

Logo no início de Eu, Ela e Minha Alma (ou Tráfico de Almas), o ator Paul Giamatti faz um monólogo retirado da peça Tio Vânia de Anton Tchecov* , alternando uma atuação concisa do texto com pequenos relances de um ator entrando em desespero. É exatamente este desespero e mal-estar que guia Paul Giamatti interpretando…Paul Giamatti, neste filme que para muitos parecia um “juntão” de outros filmes como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Quero Ser John Malkovich.

Logo após esta introdução, Paul Giamatti lê em um artigo da revista New Yorker sobre a possibilidade de passar por um tratamento de “extração de alma”: procedimento este que promete curar o paciente de todas as suas angústias, colocando novamente em paz com a sua vida. Receoso no início, ainda mais pelas respostas automatizadas e sintéticas do Doutor Flintstein (interpretado comicamente pelo normalmente sério David Strathairn), Giamatti aceita a operação e tenta prosseguir com uma vida “desalmada”. Até que o seu atual estado apático o deixa tão desconexo com o papel da peça e com a sua vida que ele rapidamente procura uma forma de compensar os 5% de alma que sobraram dentro dele, envolvendo então uma estranho sistema de tráfico de almas e “mulas” que transportam material da Rússia para os EUA.

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Paul Giamatti e David Strathairn observando umas almas

Diferente dos filmes escritos por Charlie Kaufman,  roteiro da diretora estreante Sophie Barthes dá espaço a um andamento diferente, menos neurótico e virtuoso.  Abrindo espaço para uma discussão existencial do assunto. No que o Quero Ser John Malkovich se apoia no absurdo da invasão à mente do ator, Eu, Ela e Minha Alma parece transmitir uma cumplicidade do ator Paul Giamatti em participar da história tanto como um fator cômico como ferramenta da diretora. Afinal, estar “desalmado” realmente resolverá alguma coisa? Nossa vida se resume a apenas um fator, será que não devemos buscar dentro nós outras respostas?

Mais do que uma comédia, um filme realista, Eu, Ela e Minha Alma busca suas respostas numa jornada na estrada, mesmo sabendo que muito não poderá ser solucionado. O “juntão” dos filmes aparece em alguns momentos, mas todo o trabalho acaba sendo responsável para manter a sua própria identidade. E essa cara sempre será a de Paul Giamatti que carrega o filme como ninguém em meio ao inverno russo.

Eu, Ela e Minha Alma (Cold Souls) – Diretor: Sophie Bartes, Com: Paul Gimatti, Emily Watson

Apresentado na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

* Tchecov é a grafia adotada no Brasil pelo professor Boris Schnaiderman, tradutor de “A Dama do Cachorrinho e Outros Contos”. Há quem escreva Tchekhov, Tchékhov, Chekhov, etc. Esta última grafia é a adotada em inglês.


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